Artigos › 23/09/2016

Discernimento

Dom Jaime Spengler
Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre
Presidente do Regional Sul 3 da CNBB
 

Vivemos um tempo histórico repleto de dificuldades e possibilidades. Há quem diga que estamos em uma crise política e econômica; outros afirmam que é uma crise ética. Entretanto, não seria demasiado afirmar que vivemos, sobretudo, uma crise antropológica.

De fato, a compreensão do que é o ser humano, sua nobreza e dignidade, seu lugar no universo, sua origem e destino, vocação e missão é reduzida e pouco aprofundada. Isto talvez se dê pela tendência de cultivar o instante, desconectado do passado e sem considerar o futuro.

O desejo de felicidade é algo inato no ser humano! No entanto, num mundo de novidades infinitas, o ser humano parece não se sentir feliz. Há algo que o inquieta, mas que não consegue identificar.

A consequência dessa situação é a sensação de medo. Sacrifica-se a liberdade em favor de maior segurança. Ora, segurança e liberdade são valores fundamentais para a dignidade humana. Segurança sem liberdade é submissão, escravidão. Liberdade sem segurança expressa uma deficiência. Como encontrar um equilíbrio entre tais aspectos do humano?

A cultura ocidental buscou, ao longo dos séculos, de diferentes modos, encontrar um equilíbrio saudável entre liberdade e segurança. A fé cristã, alicerçada na tradição judaica, ensina que o ser humano é chamado à liberdade. A liberdade, a partir dessa perspectiva, é essencialmente abertura para Deus, em Cristo. Por isso, o ser humano não pode e não deve ser instrumentalizado por quaisquer estruturas meramente humanas.

Diante da crise que vivemos com suas questões prementes, urge buscar respostas adequadas. Os cristãos, inseridos nas coisas do mundo e da história, em diálogo com todas as pessoas de boa vontade, se empenham por discernir os desígnios de Deus para a sociedade atual.

Buscar perceber que forças agem na sociedade, perceber quais podem nos conduzir para um lado ou para o outro, para a felicidade ou infelicidade, para a vida ou para a morte é o difícil trabalho do ser humano. Esse trabalho exige conhecimento, capacidade de escolha, decisão livre e responsável.

O ato de discernir e decidir é arte. Exige empenho e educação, instinto e trabalho, natureza e cultura, razão e fé. Percebe-se, porém, uma hipertrofia da técnica em todos os âmbitos da vida humana. Ignora-se, ou se opta por ignorar, a existência, por exemplo, das ciências do espírito. Urge redescobrir essas ciências! Sem elas a alma humana corre o risco de se perder no labirinto dos próprios artifícios.

A dimensão do espírito tem sido deliberadamente transcurada. De um lado há quem a considere coisa de “competentes”; de outro se percebe o surgimento de charlatões de plantão.

Discernir significa recompor a diversidade na harmonia. Daí a necessidade de considerar o lugar do espírito – aspecto determinante da identidade humana.

A obra do discernimento permite cultivar as justas distinções. Ora, distinguir é vida. O contrário da distinção é a confusão. Onde há confusão não há clareza, objetividade, distinção. A distinção é condição para a existência. O indistinto não existe!

Não estariam assim apresentados os pressupostos necessários para superar a crise que sofremos? Há interesse por parte dos dirigentes de nosso povo em criar as condições necessárias para que cada ser humano goze de autêntica liberdade? Há suficiente disposição e abertura para resgatar os valores fundamentais de nossa cultura, meio para superar a insegurança atual?

A obra do discernimento conduz à liberdade, e requer liberdade.

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