Bispos › 06/04/2017

A concepção cristã da família

Dom Dadeus Grings – Arcebispo Emérito Arquidiocese de Porto Alegre 

Aprendemos que o berço da filosofia ocidental se encontra na Grécia. Conhecemos os grandes nomes que não só nos ajudam a pensar, mas também fornecem preciosos conteúdos do que eles mesmos descobriram, pensando,refletindo e pesquisando. Falamos dos pré-socráticos, especialmente de Parmênides, Heráclito e Pitágoras. Vêm depois os três grandes do pensamento: Sócrates, Platão e Aristóteles. Não pode alguém passar ao largo do Pensamento ocidental sem se referir a eles.

O berço das religiões monoteístas, porém, é o Oriente Médio, com Abraão, Isaac e Jacó, projetados legendariamente no encontro com Deus. Seguem nesta linha patriarcal, Moisés, como origem do Judaísmo; Jesus Cristo, na base do Cristianismo e Maomé, fundador do Islamismo. Três religiões monoteístas que se põem na sucessão de Abraão, Isaac e Jacó.

Não queremos aqui discutir quem teve mais influência na humanidade, se o  pensamento grego, que passou a se denominar, a partir de Pitágoras, de Filosofia, ou a religião palestina, que calcou sua dimensão monoteísta. O fato é que ambos, filosofia e religião, plasmaram a civilização ocidental. A partir delas nos tornamos decididamente filhos da cultura – desta cultura ocidental – mais que da natureza, que nos vem do nascimento. Em outras palavras, a natureza nos é transmitida pela geração, a partir da bi-sexualidade masculino-feminina, ao passo que a cultura chega a nós pela tradição, inicialmente oral, depois escrita e, por fim, pelos modernos meios de comunicação, das ondas sonoras e visivas.

Servindo-se das conquistas da filosofia e da religião, a cultura os transmite um ingente acervo de conhecimentos e de atitudes, que plasmam a civilização e a vida humana. Basta lembrar que ninguém nasce vestido. Ao vir ao mundo não chega revestido senão com o corpo. As roupas distintas para o sexo masculino e feminino vêm depois. Não cobrem somente o corpo, mas encobrem também a alma, com uma série de tradições, moldando a vida na terra. Logo que o amadurecimento humano permite, aprende-se a caminhar ereto, a falar uma língua, que recebe o título de materna, ensinada pela mãe, e se acolhe uma série de costumes que integram os hábitos civilizados. Acabamos de viver de acordo com o que pensamos e aprendemos. É tudo verdadeiro? Há muita falsidade? como distinguir? Falta senso crítico ou falta transmissão mais acurada das origens?

Sem entrar em pormenores, reconhecemos que todos vivem a partir de algumas certezas. Isto equivale a garantir que a vida humana se orienta por alguns princípios indiscutíveis. A filosofia lançou seus fundamentos na certeza da própria existência: “se penso sou”; dos próprios atos: “se ajo existo”; da convivência com os outros: “se nasci alguém me gerou”; e da existência de Deus: “se fui gerado, alguém está no início desta série que me deu origem”.

A partir destes princípios, a civilização elaborou uma alentada síntese doutrinária, tanto  para o que se conhece e descobriu ao longo dos séculos, como para o que se deve fazer para preservar a vida, dando-lhe sentido. O Cristianismo fala de dogmas  e de moral de atitudes, para expressar sua doutrina e unir seus fieis em torno de alguns princípios fundamentais para crer e fazer, com o objetivo de possuir a vida eterna.

Acontece que a doutrina se situa nalgum grau de abstração. A ontologia apresenta três propriedades transcendentes do ser: a unidade, que  tem por si mesmo. Expressa sua identidade. A verdade o refere à inteligência. E a Bondade  o confronta com a vontade.  Parte do princípio da dualidade: realidade e mente. A realidade, existente em si, é acolhida pela mente, respectivamente, pelo intelecto que a conhece e pela vontade que a quer e pelos sentimentos que a aprecia.

Houve, no decurso dos tempos, uma forte tentação de bifurcar. Conhecemos geralmente por antônimos. A opção seria entre a verdade e a falsidade; entre o bem e o mal; entre a unidade e a divisão; entre a produção e o consumo; entre o masculino e o feminino… Na verdade esta perspectiva não está correta. O fato de reconhecer que nosso conhecimento se faz por abstração e que nossas decisões procedem de escolhas múltiplas, nos convence que as dicotomias não correspondem à riqueza nem da verdade, nem da bondade, nem da unidade, realmente existentes. Falamos de três graus de abstração: uma física, outra matemática e outra metafísica. Não há dúvida a respeito da soma matemática: 2 + 2 = 4. Na verdade esta soma reduz a realidade à quantidade. Se lhe acrescentamos as qualidades que existem até bem mais marcantes e abundantes, a coisa muda: não se podem somar duas laranjas com duas pedras… Opor noite e dia é resultado da abstração dos lusquefusques. Hegel, com muita razão, se negava contrapor verdade e falsidade. Acrescenta-lhes um meio termo: a tese, passando pela antítese, chega à síntese.

Aplicando para o nosso caso, constatamos que a família não é apenas casal: homem e mulher. Envolve também filhos e filhas. A vida não é unidimensional. Engloba três graus: vegetativo, sensitivo e intelectivo; o ser humano não é somente inteligência, mas também vontade e sentimentos… Não por nada o Cristianismo se baseia não em duas, mas em rês virtudes teologais: fé, esperança e caridade. E para dizer tudo, Deus não é dualidade, mas Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

 

PARA REFLETIR

  1. Qual é a influência da filosofia na vida humana?
  2. Em que as religiões contribuem para as civilizações?
  3. Em que a abstração, operada pelo conhecimento, pela vontade e sentimentos, incide na vida humana?

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