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A era da comparação

“É uma era de seleção orientada a uma hierarquia de valor”. (Byung-Chul Han)

 

A filosofia sempre se ocupou de ajudar-nos a distinguir entre as coisas efêmeras e os valores perenes. No âmago de tudo estava, pois, a preocupação com a elevação do ser. Era preciso demonstrar ao homem que somos seres em devir. A mudança constante e o anseio por evolução nos distinguem e dão sentido ao nosso viver.

O mundo mudou. Passamos a nos impressionar com as vozes  dos “formadores de opinião”, sem mesmo perguntar de onde vêm, quem são ou a serviço de quem fazem o que fazem. A sociedade da liberdade trouxe também a possibilidade de relativizar valores e nivelar por baixo a humanidade.

Atualmente, temos a impressão de que boa parte das pessoas não reflete sobre suas escolhas e atitudes. Se todos fazem, por que não eu? Se todos são assim, por que não eu? Comparamo-nos a tudo e a todos. Os critérios de discernimento já não são acessados pelo que consideramos importante, mas pelo que é proposto no momento. O ‘canto da sereia’ que ilude a tantos insiste em puxar-nos para visões rasteiras de vida, pondo em dúvidas todas as possibilidades de se viver uma vida verdadeiramente digna, independentemente de todos os sofrimentos que tenhamos de enfrentar, a fim de realizá-la.

“O sentido da vida é a própria vida”, no pensamento de Frankl. Ela tem sentido em si mesma. É ainda ele quem nos ensina em meio às condições insalubres, que não podem ser modificadas ou aos eventos de nossa história sobre os quais não temos ingerência que,  ainda assim, temos em nossas mãos o poder de decisão. Se não posso mudar a realidade, posso mudar a mim mesmo, a forma como encaro, enfrento, elaboro e compreendo as minhas feridas.

Há algum tempo um amigo dizia que o que falta no mundo é prestar atenção nos grandes modelos de humanidade que a história nos presenteou e presenteia a cada instante. Refiro-me aos heróis que não são vistos nas telas, nem mesmo constam nos stories do instagram. Na era dos influencers não são poucos os pais que se orgulham ao ver seus filhos gravando vídeos que imitam práticas pouco recomendáveis a crianças e adolescentes. O que importa é o filho ficar famoso, ser visto por todos. Em breve acompanharemos as consequências de tudo isso que estamos fazendo com as novas gerações. A sociedade de vidro, presa às telas, está perdendo o essencial da vida, que é a própria vida em troca de vidas virtuais, ilusórias e efêmeras.

Felizmente, muitos (as), anonimamente, iluminam o mundo com sua integridade moral, com sua força espiritual e com sua sensibilidade diante da vida. Um indicativo de que há escolhas possíveis e recomendáveis a serem feitas por pais, educadores, sacerdotes e tantos quantos tenham responsabilidade para com as novas gerações.

Um bom método para o discernimento seria começarmos por refletir acerca de nossas preferências, do tempo que dispensamos  e a quem o fazemos. Quem são nossos próprios modelos? A quem admiramos? São tantas as perguntas…não sejamos tímidos em assumir valores que elevam, porém, será necessário abrir mão de muitas coisas. Alguns chamar-nos-ão de ultrapassados, a filosofia, entretanto, dirá que estamos em processo de autotranscendência…crescimento…melhora do ser. Continuemos, pois…

 

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade