Bispos › 05/09/2017

A Igreja e as questões sociais

Dom Jaime Spengler – Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre 

Presidente do Regional Sul 3 da CNBB

As questões sociais sempre interpelaram os pastores da Igreja. É longa a tradição da Igreja em tratar de problemas sociais de acordo com sua própria fé.

Diferentes realidades e tipos de sociedade foram destinatárias da mensagem da Igreja que anunciou o Evangelho entre os tumultos dos eventos sociais. Mas foi a questão operária do século XIX que estimulou a solicitude pastoral da igreja para enfrentar as coisas novas que surgiram então. A exploração dos trabalhadores, a organização industrial do trabalho, a matriz capitalista e a força das ideologias socialista e comunista fizeram eco e suscitaram reflexão e pronunciamento oficial da Igreja através da Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII. Os seguidores de Cristo não podiam calar diante dos clamores da realidade.

A moral cristã desenvolveu reflexões sobre o uso comum dos bens, da dignidade da pessoa humana e da participação dos cristãos na sociedade. Essa temática, portanto, é antiga e sempre nova, pois expressa o contínuo apelo do Evangelho de Cristo para que os cristãos anunciem e vivam construindo a civilização do amor, denunciando e desmascarando as miopias e injustiças que a história tem apresentado ao longo dos tempos.

É inegável que na trajetória do cristianismo há um fio condutor que percorre todas as etapas. Trata-se do elemento mais profundo da identidade cristã: que Deus age em favor dos seres humanos para salvá-los. Ele se revela em Jesus Cristo e expressa a identidade mais profunda da pessoa: o ser humano não é somente liberdade, mas é livre para produzir fraternidade e igualdade. Toda práxis cristã, orientada pelo Evangelho é uma prática do amor. O mundo do trabalho, a busca da paz e o avanço de novas tecnologias remetem ao solidarismo que repousa numa expressão muito corrente na Doutrina Social da Igreja:  a civilização do amor.

Vivemos num tempo fascinante. As novas tecnologias, o progresso científico, o avanço da robótica e da informática permitem-nos contemplar comodidades e experiências inimagináveis num passado recente. A emergência da subjetividade, a preocupação com a ecologia, o crescimento do voluntariado, o empenho pela tolerância e respeito pelo diferente despertam uma nova consciência de pertença ao planeta e da integração de tudo em todos.

Paradoxalmente descortina-se também um quadro de enormes problemas. Os índices de pobreza e miséria continuam a desafiar qualquer consciência tranquila de nossa sociedade. O consumismo e o utilitarismo nas relações sociais deterioram as possibilidades de fraternidade porque geram exclusão e reduzem o ser humano ao valor de mercado. O terrorismo e as guerras ameaçam um futuro de paz para as civilizações. Manipulações genéticas, contaminação das águas e do solo, desertificação de áreas imensas desafiam qualquer projeto de uma sociedade e de um planeta sustentável.

Acrescente-se nesse elenco o desenvolvimento do sentimento de vazio que ocasiona a depressão o mal da moda. Vivemos sob a queda das ideologias, o fragmento dos sonhos e a perda do sentido.       Apesar das tentativas de prescindir da religião e do sagrado, do secularismo e do indiferentismo religioso que emergem com força na atualidade, o cristão sabe que sua identidade depende da sua relação com tudo o que o circunda. Para não perder sua essência, a fé cristã precisa ocupar-se da história, porque nela se realiza a abertura do ser humano para a transcendência. Nesse encontro entre o visível e o invisível, o humano encontra o sentido, a cura e a salvação de toda sua existência.

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