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A máquina de resolver problemas

 

“A vida é mais do que solução de problemas. Aqueles que só solucionam problemas já não possuem futuro.” (Byung-Chul Han)

 

Projetos, conflitos gerados nas redes sociais, desagrado com a postura de alguns professores, problemas extraescolares, informações desencontradas, atendimentos exaustivos  a pais e responsáveis que querem saber tudo nos mínimos detalhes, opinando frequentemente sobre os processos pedagógicos e muitas outras demandas compõem o dia a dia dos gestores escolares. Todos parecem querer tudo ao mesmo tempo da escola. E aos gestores sobra pouco tempo para o que realmente importa: acompanhar o processo de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes.

Esse panorama já vinha se agravando, mas evidentemente com a pandemia foi potencializado. Resultado: professores e gestores estão no limite de suas forças físicas e psíquicas para lidar com tantas exigências  (e por que não dizer, com tantas intransigências). A sociedade que vivemos parece adoecer a cada instante. Torna-se cada vez mais fria, egoísta e incapaz do que entendemos por empatia, sensibilidade e acolhimento do outro em suas diferenças. Tudo parece respingar na escola.

Estudiosos do comportamento humano indicam estarmos vivendo um período de infantilização. E já há pais que procuram os professores universitários para ‘tirar satisfação dos resultados insuficientes dos filhos nas cadeiras do ensino superior.” Para boa parte da humanidade, que passa horas diante das telas dos smartphones,  os educadores devem ter algum poder mágico de resolver todos os problemas que surgem em decorrência de algo ou que são gerados pelas opções impensadas de alguns.

Enquanto isso, os processos educativos, a inovação no ensino, a apropriação de novas ferramentas e práticas relacionadas ao acompanhamento dos estudantes ficam para trás, por não sobrar tempo a uma séria e responsável reflexão sobre o que é importante ensinar, quais competências e habilidades são fundamentais num mundo em constante disrupção, como aliar teoria e prática, a fim de que os estudantes possam adquirir conhecimentos que lhes garantam autonomia, criatividade, consciência crítica entre outros.

Avalio como urgente a importância de uma séria revisão de relações e âmbitos a serem definidas entre o que compete aos diferentes atores no processo educativo das novas gerações. Pais que passam o dia todo no espaço pedagógico dos colégios não compreenderam ainda que sua tarefa é maior do que fiscalizar o que a escola faz. Professores e gestores que ocupam a maior parte do tempo em atendimentos a um grupo seleto de “fregueses” que todos os dias insistem em tirá-los de seus campos de ação para satisfazer suas demandas particulares precisam se empoderar do que realmente lhes compete.  Afinal, a escola com sua natureza educativa deve priorizar sempre os estudantes. A grande pergunta parece ser: qual a questão pedagógica que leva um pai ou uma mãe à escola. Caso não seja esse o tema, a resolução do problema não estará ali.

Penso que à escola do presente e do futuro caberá criar gabinetes de crise com pessoas dedicadas ao atendimento de pais e mães, fazendo triagem do que realmente importa e do que deve ocupar-nos em nosso fazer pedagógico.  Caso continuemos querendo ‘agradar’ a todos, estaremos perdendo tempo em fazer o que realmente sabemos e o que está no âmbito de nossas competências e funções. E isso deveria ser assumido por todos, em uma verdadeira rede de cooperação. É preciso discutir com a sociedade sobre o papel da escola, antes que o futuro dessa instituição tão valorosa seja roubado por quem costuma dar opinião em tudo, e vai pela vida trocando os filhos de escola em escola, por não encontrar uma escola que resolva os seus problemas particulares. Afinal, a escola não é e não deve ser jamais uma máquina de resolver problemas. A ela cabe ensinar as gerações a assumirem suas próprias vidas e serem responsáveis por suas opções.

 

Prof. Dr. Rogério Ferraz de Andrade – Secretário Executivo do Regional Sul 3