Bispos › 17/03/2017

A Quaresma e a Campanha da Fraternidade

Dom Aparecido Donizeti de Souza – Bispo auxiliar de Porto Alegre

Vivemos um tempo especial na nossa caminhada de fé. Iniciamos há alguns dias a Quaresma no desejo de nos prepararmos para a Páscoa. Conforme Frei José Ariovaldo da Silva, “nós cristãos celebramos todo ano a festa da Páscoa: morte e ressurreição de Jesus e nossa. É a maior de todas as festas. A mais importante… Grande demais para ser preparada em três dias ou uma semana. Por isso, entendemos a sua preparação para quarenta dias”.

Conforme lembrou o profeta Joel na liturgia da Quarta-feira de Cinzas, Quaresma é um tempo oportuno para voltar nosso coração a Deus. Assim, é marcada por um apelo à penitência e à conversão. Por isso, nos é proposto exercícios espirituais, através dos quais essa conversão possa acontecer de modo que celebremos de maneira digna e solene a Páscoa do Senhor.

O texto-base da Campanha da Fraternidade 2017 nos diz que “o insistente apelo à penitência e conversão não se apresenta na dinâmica da ‘tristeza’, mas de uma ‘sóbria alegria’, alimentada pela esperança (…). Quaresma é tempo de conversão, por isso tempo de intensa alegria. Alegria, porque iniciamos nossa caminhada rumo a Páscoa do nosso Salvador Jesus. Se, por um lado, a recordação do sofrimento de Jesus com sua morte na cruz produz em nós uma dor, a Ressurreição nos traz a certeza da vitória e a Quaresma passa a ser um tempo de alegria, pois nos aproxima de Deus e dos irmãos”. Essa aproximação para com Deus e os irmãos certamente nos fará mais comprometidos e solidários com os que sofrem. Nesse sentido, o texto-base nos lembra também que “a Campanha da Fraternidade quer ajudar a construir uma cultura de fraternidade, apontando os princípios de justiça, denunciando ameaças e violações da dignidade e dos direitos, abrindo caminhos de solidariedade”. Desse modo, a Quaresma, enriquecida com a CF, representa um apelo à conversão pessoal e social.

Diante disso, podemos louvar a Deus por termos no Brasil a possibilidade de olhar com seriedade e profundidade tudo que esteja ligado à vida humana. É o que estamos fazendo nesse ano, pois o olhar, a partir da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja, para os biomas brasileiros diz respeito ao cuidado com a vida. Há uma conexão profunda entre a vida humana com todo tipo de vida animal e vegetal. Assim, precisamos como Igreja nos posicionarmos e propormos alternativas frente à destruição desmedidas de tais biomas.

Segundo o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, a natureza “é um dom oferecido pelo Criador à comunidade humana, confiado à inteligência e à responsabilidade moral do homem. Por isso, ele não comete um ato ilícito quando, respeitando a ordem, a beleza e a utilidade de cada ser vivente e da sua função no ecossistema, intervém modificando-lhe algumas características e propriedades. São deploráveis as intervenções do homem quando danificam os seres viventes ou o ambiente natural, ao passo que são louváveis quando se traduzem no seu melhoramento”. Portanto, conforme o lema da CF/2017, “cultivar e cuidar da criação” é nossa obrigação.

Que o tempo quaresmal seja oportuno para que os sinais de morte em nosso meio, gerados pelo egoísmo, orgulho e autossuficiência, sejam superados e vencidos. Que a força do Ressuscitado transforme nossa vida e, através de nós, toda a realidade na qual vivemos.

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