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A Transmissão da Fé às novas gerações

Vivemos hoje numa sociedade laica, plural, secularizada, que, de fato, não é antirreligiosa, mas que situa todas as suas convicções no terreno da livre adesão. Essa situação sociocultural nos força a despertar a dimensão missionária da fé. Daí a problemática da proposta da fé e, mais concretamente ainda, a do “primeiro anúncio”. Não é possível estabelecer um caminho de catequese se a pessoa não está motivada a percorrê-lo. É preciso que crianças, jovens e adultos tenham um mínimo de interesse em se aprofundar na fé cristã.

Outro desafio é a recuperação da centralidade da fé na vida humana. Muitos escolheram caminhos que dispensam Deus e a vida eterna da agenda. Quando aparece a doença, a morte, a perda e o vazio, se questionam sobre as razões da existência. Essa realidade afeta até mesmo os cristãos, como bem recordou o Papa Bento XVI na Porta Fidei n. 2: “Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerada essa como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora, um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado.”

Urge recuperar o lugar de Deus em nossa vida, e, entre as coisas que passam, ser capaz de abraçar as que permanecem.  Isso traz consequências para a transmissão da fé. Somente quem a tem pode apresentá-la. Eis o desafio da catequese atual. Há muita sede, mas é preciso maior profundidade e experiência de encontro com a Palavra que se fez carne.

A experiência revela que, em todo o Brasil, se multiplicam formações e projetos de Iniciação à Vida Cristã numa redescoberta fecunda da centralidade da Palavra de Deus na catequese de crianças, jovens e adultos. As novas gerações e os afastados se encantam quando a Palavra é anunciada sem fundamentalismos ou ideologias, e quando a doutrina e a moral têm como fundamento e permanente referência a revelação bíblica.

Contudo, se percebe que a resistência e os obstáculos crescem em quem vive outro estilo de vivência, pouco afeito à escuta da Palavra. Então, há rejeição às mudanças, especialmente quando a Palavra pede para estarmos atentos aos sinais dos tempos, e mantendo a fidelidade à beleza tão antiga e sempre nova do Evangelho.

Uma catequese centrada na Palavra exige catequistas mais dedicados à leitura e ao testemunho cristão. Exige ministros e leigos que anunciem mais pela vida do que pelas palavras. Igualmente é preciso rever os materiais usados na catequese de crianças, jovens e adultos.  Afinal, no “início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma pessoa, que dê à vida um novo horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo.” Deus Caritas Est n.1.

Quando uma comunidade é convertida pela Boa-Nova, é capaz de acolher e atrair sempre novos irmãos para a família de Deus. Pode-se até questionar se a evasão de jovens após os sacramentos de iniciação não é resultado de uma comunidade que pouco se deixa afetar pela Palavra de Deus. Afinal, segundo o relato dos Apóstolos, a cada dia, o Senhor acrescenta sempre mais ao número daqueles que serão salvos (At2,42 ss).

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria