Destaques › 09/02/2017

Campanha da Fraternidade 2017 propõe debate sobre os biomas brasileiros

Todos os anos a CNBB lança o convite à reflexão sobre algum tema de relevância social durante o período da Quaresma. Dentre outros temas, o povo católico de todos os recantos do Brasil já refletiu sobre ecologia, sistema carcerário, tráfico humano, juventude, capitalismo, segurança e saúde pública. Neste ano de 2017, o tema proposto é “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, relacionado com o lema “Cultivar e guardar a criação”, tendo como inspiração o versículo bíblico de Gn 2,15.

14199273_1675944989392782_5426154805954517284_nPara compreender um pouco mais sobre o assunto, a assessoria de comunicação da Diocese de Montenegro realizou uma entrevista com o Pe. Cesar Leandro Padilha (foto ao lado), secretário executivo do Regional Sul 3 da CNBB. Nas respostas das perguntas enviadas por e-mail, ele esclarece que “a Campanha da Fraternidade é uma iniciativa surgida no Brasil há mais de 50 anos como gesto concreto da quaresma. Só podemos entender os objetivos da CF como consequência e compromisso do tempo da quaresma”. E destaca: “com certeza, uma pessoa de fé que faz sua caminhada quaresmal rumo à Páscoa, ao tomar consciência da realidade de como são tratados os biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente”.

Confira a íntegra da entrevista:

Diocese de Montenegro – Qual a importância de promover, entre nosso povo cristão, a reflexão sobre um tema de relevância social durante a Quaresma?

Pe. Cesar Leandro Padilha – Em primeiro lugar é preciso ressaltar o caráter batismal da quaresma. Isso fica muito forte na liturgia deste ano, o Ano A. Historicamente, a quaresma surge como tempo forte de conversão em preparação ao Batismo. Quaresma é tempo de vida nova. A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa surgida no Brasil há mais de cinquenta anos como gesto concreto da quaresma. Só podemos entender os objetivos da CF como consequência e compromisso do tempo da quaresma. O texto base da CF 2017 nos lembra que, quando falamos de Quaresma, não podemos esquecer do primeiro aspecto de sua origem: preparação dos catecúmenos para o recebimento dos sacramentos da iniciação cristã, os chamados sacramentos iniciais de inserção na comunidade de fé. O caminho de conversão apresentado, então, a estes catecúmenos é simbolizado por um tempo de reconciliação.

Diocese de Montenegro – Em que consiste basicamente o tema da Campanha da Fraternidade deste ano (Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida) e como ele se relaciona com o lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15)?

Pe. Cesar Leandro Padilha – A Campanha da Fraternidade de 2017 se apresenta como um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas de boa vontade para enfrentar, com consciência crítica, o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15), com o tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”. Na reflexão da CF 2017 fica claro o enfoque da Iniciação à Vida Cristã da Quaresma, próprio do ciclo do Ano A, que ressalta como a conversão e a adesão à vida de fé em Jesus Cristo implicam uma nova postura diante da realidade em que se encontra a vida nos diversos biomas brasileiros. Com certeza, uma pessoa de fé que faz sua caminhada quaresmal rumo à Páscoa, ao tomar consciência da realidade de como são tratados os biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente.

Diocese de Montenegro – De que maneira podemos levar para a prática diária de nossa vida de fé o cuidado com a criação, de modo especial dos biomas brasileiros, e percebê-los como dons de Deus, a fim de promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho?

Pe. Cesar Leandro Padilha – O texto base da CF 2017 faz o seguinte questionamento: Como é que alguém poderá celebrar a Páscoa ou os sacramentos que o inserem no mistério de Cristo alheio à vida da criação na qual está mergulhado e que o sustenta?

Diocese de Montenegro – O que é mais desafiador nos dias de hoje? Preservar os biomas, respeitando as características da biodiversidade; ou criar uma sintonia de relações respeitosas entre culturas humanas diferentes?

Pe. Cesar Leandro Padilha – Empoderada pelo Evangelho, a Igreja, para além dos aspectos da preservação e do cuidado, muito se preocupa com a vida em cada bioma brasileiro. Com esperança e comprometimento, a Igreja se mantém firme na defesa da vida dos povos originários e das comunidades tradicionais, que foram se instalando na respectiva região e acabaram por transformar estas localidades em terras de vida, construindo a história. Para a Igreja, o bioma não representa somente um santuário ecológico onde se preservam espécies, mas sim um lugar antropoteológico, onde o ser humano faz uma profunda experiência de Deus, da natureza e do outro.

Diocese de Montenegro – Que relação podemos perceber entre a Encíclica Laudato Si, a CF 2016 (Casa Comum, nossa responsabilidade) e a CF deste ano?

Pe. Cesar Leandro Padilha – Um dos objetivos específicos desta CF é proporcionar às comunidades e à sociedade uma reflexão que leve a todos a compreender o desafio da conversão ecológica a que nos chama o Papa Francisco na carta encíclica ‘Laudato Si’ e sua relação com o espírito quaresmal.

Diocese de Montenegro – Ainda na encíclica sobre a Ecologia, Papa Francisco alerta para a relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta. O que nós, cristãos, podemos fazer para diminuir os impactos deste cenário?

Pe. Cesar Leandro Padilha – É importante que a CF não fique restrita aos ambientes internos da Igreja. É preciso dialogar com as forças vivas da sociedade. Ir ao encontro. Somente através do diálogo entre Igreja e sociedade poderemos chegar a comprometer as autoridades públicas para assumir a responsabilidade sobre o meio ambiente e a defesa desses povos. Como Igreja, queremos contribuir para a construção de um novo paradigma econômico ecológico que atenda às necessidades de todas as pessoas e famílias, respeitando a natureza.

Diocese de Montenegro – Sabemos que no Brasil há seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa, sendo que nós, do Regional Sul 3, vivemos, em grande maioria, neste último. Quais as características do bioma Pampa e como podemos contribuir, enquanto cristãos, para sua preservação?

Pe. Cesar Leandro Padilha – No Rio Grande do Sul temos dois biomas: a Mata Atlântica e o Pampa. A Mata Atlântica abrangia uma área equivalente a 17 estados. Hoje restam 8,5% de remanescentes desta floresta que ainda guarda riquezas naturais e tem poder de regeneração. Com o caminhar da história, no bioma Mata Atlântica, a Igreja tem contribuído na defesa da vida dos povos originários e na defesa deste bioma. O nosso bioma Pampa representa 63% da área do Estado do Rio Grande do Sul. É o único bioma presente em apenas um estado brasileiro. Destacam-se em sua paisagem os campos, os capões de mata, as matas ciliares e os banhados. Foi reconhecido como bioma apenas em 2004 e é uma das áreas de ecossistemas de campo mais importantes do mundo, pois possui um vasto patrimônio cultural associado à biodiversidade e também uma vasta biodiversidade ainda pouco conhecida.

Diocese de Montenegro – Como a Igreja pode ajudar a apoiar os pequenos agricultores de nossos biomas?

Pe. Cesar Leandro Padilha – Olhando o texto base, vemos em cada bioma não só uma apresentação científica sobre a natureza, mas também uma bela descrição da presença da Igreja em cada bioma, fazendo memória e lembrança de homens e mulheres que fizeram de sua vida uma defesa incondicional da vida. De modo especial, a CF 2017 nos convida a respeitar e valorizar a agricultura familiar, os territórios das comunidades tradicionais e os remanescentes indígenas.

Diocese de Montenegro – Como podemos entender a relação inseparável que existe entre ecologia da natureza, ecologia humana e ecologia social, defendida pelo Papa emérito Bento XVI, na sua mensagem para o sexagésimo Dia Mundial da Paz, de 1º janeiro de 2007?

Pe. Cesar Leandro Padilha – Como ação concreta da quaresma, em seu apelo à conversão, vemos que a criação precisa ser renovada porque sofreu as consequências do pecado. A humanidade redimida habitará uma terra também redimida. Portanto, a criação, amada e desejada por Deus, é o ambiente concreto no qual o homem realiza a sua vocação. A oração da CF 2017 nos convida a rezar assim: “Criastes o universo com sabedoria e o entregastes em nossas frágeis mãos para que dele cuidemos com carinho e amor. Ajudai-nos a ser responsáveis e zelosos pela Casa Comum. Cresça, em nosso imenso Brasil, o desejo e o empenho de cuidar mais e mais da vida das pessoas, e da beleza e riqueza da criação, alimentando o sonho do novo céu e da nova terra que prometestes”.

Diocese de Montenegro – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?


Créditos: Amanda Fetzner Efrom

Pe. Cesar Leandro Padilha – Dando continuidade ao compromisso de uma caminhada comum na Igreja do Rio Grande do Sul, o Regional Sul 3 da CNBB preparou um kit contendo os encontros de preparação quaresmal e ainda uma cruz que será colocada nas portas das casas e um poço de papel em forma de cofrinho, que será montado pelas crianças, levando-as a participar da coleta da fraternidade. No Natal 2016 conseguimos fazer nosso kit do advento chegar a quase 200 mil exemplares. Que a conversão quaresmal nos fortaleça como Igreja no Rio Grande do Sul!

Por Graziela Wolfart, assessora de Comunicação da Diocese de Montenegro.

1 Comentário para “Campanha da Fraternidade 2017 propõe debate sobre os biomas brasileiros”

  1. mary disse:

    Eu quero perguntas relacionadas aos biomas!

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