Bispos › 15/06/2017

Corpus Christi

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

A celebração de Corpus Christi, Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, nos remete ao sentido da nossa fé na presença real de Cristo na eucaristia. Esta presença é manifestada publicamente, nas ruas das cidades, enfeitadas com tapetes coloridos e hinos em louvor ao Cristo eucarístico. Os raios que formam o ostensório, que é conduzido na solene procissão, indicam que Cristo, sua presença na eucaristia e tudo o que viveu e ensinou, não quer ficar encerrado no interior de uma igreja, mas quer chegar a todos os ambientes, pelas estradas do mundo.

Chamo a atenção para que não transformemos os enfeites em atração turística. Seria um desrespeito à eucaristia e um desvio do que é central na celebração deste dia. Certamente que o belo consegue, mesmo que simbolicamente, traduzir para nossa compreensão humana algo da beleza de Deus, manifestada no seu Filho Jesus Cristo. Dentre os vários símbolos que querem nos aproximar desta realidade, a eucaristia, destaco um deles, que sempre me chamou a atenção: o pelicano.Na Europa medieval, considerava-se o pelicano um animal especialmente zeloso com seu filhote, ao ponto de, não havendo com que o alimentar, dar-lhe de seu próprio sangue, abrindo uma ferida no seu próprio peito. Sendo esta lenda verdadeira ou não, seguiu-se que o pelicano tornou-se um símbolo da Paixão de Cristo e da Eucaristia.

Chegamos, então, no que considero o coração da Eucaristia. Na última ceia, com seus apóstolos, Jesus tomou o pão e disse: “Este é o meu corpo, que é dado por vocês. Façam isto em memória de mim” (Lc 22,19). De fato, ele não queria dizer apenas que fizessem exatamente os gestos que ele fizera, o mesmo rito. É algo mais profundo: dar-se, imolar-se, partir-se a si mesmo para o bem dos outros. Entendemos, então, que ao partir o pão, Jesus ensinou que além da partilha, o pão é Ele mesmo, “partia” a si mesmo. É o grande ato de amor, que caracterizou toda a vida de Jesus e que seria consumado na sua morte na cruz.

Entendemos, então, que mais do que repetir um rito, trata-se de viver o que o rito nos mostra e nos envolve. “Fazer-se eucaristia” é repartir o pão e repartir-se. Louvável que na celebração eucarística deste dia e em todas as comunidades sempre haja a compreensão do pão partilhado para os pobres e a exigência da solidariedade. Também, “fazer-se eucaristia” se prolonga além do próprio rito celebrado comunitariamente. É como disse Santo Alberto Hurtado: “A minha missa é minha vida e minha vida é uma missa prolongada”. A doação dos pais na construção da família, na educação dos filhos é a missa prolongada. O mesmo sentido tem a entrega de tantos voluntários em nossas comunidades, que não se poupam na evangelização. Como não recordar todos os que, anonimamente, cuidam dos doentes, visitam os encarcerados, vão ao encontro dos pobres que se manifestam de tantas formas, dedicam-se com amor na educação e formação de cidadãos. Então, ela nos educa para a solidariedade, aprofunda e qualifica o sentido do ser cristão. Sempre a Eucaristia traz consigo uma semente de esperança, de um futuro que será melhor, não obstante tudo o que contraria o sentido eucarístico em nossa sociedade.

 

 

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