Bispos › 06/03/2017

Cultivar e guardar a criação

Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório

 

Esse lema da Campanha da Fraternidade 2017, “cultivar e guardar a criação”, está em continuidade com o tema de 2016 sobre o cuidado com a Casa Comum e responde aos apelos da Laudato Sí.

A Igreja do Brasil nos coloca mais uma vez diante de um tema ligado a ecologia: “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida”. Tema que, a primeira vista, parece não ter muito a ver com religião, mas que na realidade tem tudo a ver. Basta ter um olhar contemplativo e preocupado com o bem estar e a vida não só dos brasileiros, mas de todos.

Sabemos o quanto todos dependemos de todos. Desde o ar que respiramos, a água que bebemos, o alimento que comemos, os meios de comunicação que usamos…

Há mais tempo a Igreja do Brasil vem trabalhando essas questões voltadas à defesa da vida e a ecologia.

As Campanhas da Fraternidade são um ótimo instrumento de conscientização e mobilização, por isso muito úteis para a mudança de mentalidade com relação a nossa realidade social, política e econômica.

O tempo quaresmal é propício para as pessoas refletirem e assumirem atitudes de conversão pessoal, comunitária e social que é o que a Campanha deseja provocar.

Uma pessoa de fé que faz sua caminhada quaresmal rumo à Pascoa, ao tomar consciência da realidade, do como são tratados os biomas brasileiros, não poderá ficar indiferente e descompromissada.

A tentação, tratando-se de ecologia, é de ficar nos grandes temas como aquecimento global, efeito estufa e achar que esse é problema somente de algumas ONGs contestadoras e que nós pouco podemos fazer. Mas não, esse problema é de todos e é sim uma questão de religião, porque cuidar das criaturas é um modo concreto de amar e louvar o Criador.

Cresceu muito a percepção da relação entre o meio ambiente e o desenvolvimento, ou seja, a consciência ecológica.

O uso indiscriminado dos recursos naturais foi que originou a crise ecológica… realidade que os movimentos ecológicos, procuram superar, desencadeando uma reflexão e ação em vista da preservação do meio ambiente.

Essa preocupação com a ecologia e agora especificamente com os biomas pode se caracterizar como verdadeira espiritualidade ecológica.

Nossa irmã, a mãe terra, é nossa Casa Comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação.

Um bioma é constituído de comunidades biológicas, compostas de organismos da fauna e da flora integrando entre si e com o meio ambiente físico. O oxigênio que os animais respiram é liberado pelos vegetais. Eles são os únicos capazes de produzir seu próprio alimento através da fotossíntese. Há uma troca permanente e quase perfeita entre os vegetais e nós ao oferecer o oxigênio pelo gás carbônico, mantendo o equilíbrio da vida.

A ação humana sempre tem consequências. Se alteramos a química da atmosfera, alteramos a sua densidade. Se o ser humano age, agredindo a natureza, esta reage proporcionalmente.

A sustentabilidade é um compromisso com o futuro. Ser sustentável é o exercício cotidiano da responsabilidade. Para ser sustentável, uma empresa tem que buscar de modo contínuo em suas decisões produzir mais e melhor seus bens e serviços sem prejudicar a qualidade de vida do planeta.

O texto base nº 244, nos dá uma indicação muito importante: “A criação, amada e desejada por Deus, é ambiente concreto onde o homem realiza a sua vocação… Do interior da própria revelação emerge o desejo de Deus pela preservação e cuidado com a obra da criação.

Para isso, colocou o homem no jardim com a vocação de cultivar e guardar a criação… No entanto, não é possível ao homem realizar esta sua vocação quando se descuida da sua origem e geração. Quando o homem se esquece de Deus, desintegra-se a relação com o seu próximo e a criação passa a ser objeto de exploração e domínio. Daí acontece os ‘desastres’.

Pela revelação, Deus ensina ao homem que todas as criaturas são relacionadas entre si e que a criação o precede em existência e lhe foi confiada para cuidar e guardar. A fé no Deus da vida exige o zelo e o respeito pela obra criada.

Se todos assumirmos conscientemente essa missão de zelarmos e respeitarmos a obra criada por Deus e confiada ao cuidado responsável do ser humano, nosso planeta continuará sendo a casa de todos e será sempre mais confortável. Infelizmente não é o que vem acontecendo.

É de extrema importância que cada comunidade ou grupo pense e assuma algumas ações concretas de conscientização sobre o cuidado com a criação e, nela, a pessoa humana.

Depois de Deus ter criado todas as coisas, do pó da terra moldou o homem e soprou nele o espírito de vida. Marcados pelas cinzas que nos lembram que somos pó e pó nos tornaremos, avancemos com alegria no caminho quaresmal rumo a Páscoa da ressurreição.

 

 

 

 

 

 

 

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