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Desiderio Desideravi – I

O Papa Francisco, mais uma vez, nos brinda com nova Carta Apostólica, chamada Desiderio Desideravi, o que significa literalmente: “Ansiava pelo desejo”. O título do documento é tirado do evangelho segundo Lucas 22,15, quando Jesus afirma, na véspera de sua paixão, ao instituir a eucaristia, na chamada Última Ceia: “Tenho desejado ardentemente comer convosco esta ceia pascal, antes de padecer”.

O Santo Padre, sem a pretensão de tratar a questão de forma exaustiva, propõe algumas reflexões sobre a liturgia, como dimensão fundamental para a vida da Igreja: “Desejo simplesmente oferecer alguns estímulos ou pistas para reflexões que possam ajudar na contemplação da beleza e da verdade da celebração cristã” (n. 01). Na sequência do texto, ao abordar o sentido teológico da liturgia, o Papa volta a frisar o objetivo do documento: “Com esta carta, quero simplesmente convidar toda a Igreja a redescobrir, salvaguardar e viver a verdade e a força da celebração cristã” (n. 16).

Diante do mistério pascal que estava para acontecer, toda a criação, toda a história estava para tornar-se história da salvação. Esse dom de grandeza infinita estava para ser confiado aos apóstolos a fim de que fosse levado a cada homem e mulher, de todos os tempos, não por seus méritos, mas por convite do amor de Deus que deseja restabelecer a comunhão com toda humanidade. Diante da iniciativa amorosa de Deus, espera-se a nossa resposta de fé: deixar-se atrair por este amor de Deus para tornar-se discípulo missionário do mesmo amor. É desejo divino que todos possam participar da Ceia do sacrifício do Cordeiro e viver d’Ele. Cada vez que vamos à missa somos atraídos por esta vontade do Senhor. Neste sentido, podemos recordar nossa resposta à saudação inicial de cada celebração eucarística: “Bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo”.

Percebemos que a liturgia se torna o hoje da história da salvação. O mistério da cruz e da ressurreição (Páscoa) é antecipado e tornado presente na Última Ceia: “Isto é meu corpo que será entregue por vós… Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados”. Jesus realizou este evento histórico, uma vez por todas, mas o sacramento o torna presente em cada celebração eucarística, de todos os tempos: “A Igreja sempre guardou como seu tesouro mais precioso o mandamento do Senhor: ‘Fazei isto em memória de mim’” (n. 8). Este mistério pascal do Senhor, que se torna presente na liturgia, não é um simples conceito, uma ideia ou pensamento, mas a possibilidade de um verdadeiro e privilegiado encontro, o caminho da comunhão escolhido pela Santíssima Trindade. Afirma o Santo Padre: “A fé cristã ou é um encontro com Ele vivo, ou não existe” (n. 10 e 33). Somos, portanto, convivas da Santa Ceia, para ouvir a voz do Senhor, alimentar-nos do seu Corpo e do seu Sangue. A força de seu mistério pascal chega a nós. Agora chegou a nossa vez de sermos Nicodemos, a mulher samaritana e tantos outros personagens que foram atingidos pela graça e pela salvação. Ele continua a perdoar-nos, curar-nos, a salvar-nos com o poder dos sacramentos.

Nosso primeiro encontro com seu efeito pascal foi o batismo, que não foi somente uma adesão mental ao pensamento do Senhor ou a concordância com um código de conduta, imposto por Ele. Pelo contrário, afirma a Carta Apostólica: “É um ser mergulhado em sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, um ser mergulhado em seu ato pascal… Em perfeita continuidade com a Encarnação, nos é dada, em virtude da presença e ação do Espírito, a possibilidade de morrer e ressuscitar em Cristo” (n. 12).

Na próxima semana continuaremos a reflexão sobre o Carta Apostólica do Papa.

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul