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Ética e a Era do Vazio

 

Constata-se hoje a passagem de uma única moral objetiva para as muitas opções éticas. Isso leva a um niilismo, no qual o ser humano caminha sem muitas balizas, tudo é livre e permitido e acaba-se vivendo o dia a dia sem um grande ideal ou meta para a existência. O mundo se tornou um mar aberto. O que vale é o acontecimento e não a realização de um projeto. Trata-se de uma ética que não prevê nada de seguro, estável e fixo. Não há terra firme, apenas o mar aberto.

A ética que deriva dessa situação é uma ética que dissolve certezas e se configura como ética do passageiro, do viajante, que não apela à lei, ao direito ou à norma, mas à experiência. O humano desterritorializado tem referências pontuais e recorre mais à história do que à natureza.

Assim, o ser humano sem saber o que fazer ou não fazer, perde o sentido último de seu trabalho, do seu sofrer, do seu festejar e até de ser livre. A liberdade fica reduzida à espontaneidade. A consciência não indica mais um juízo especulativo sobre a moralidade das ações, mas um julgamento sobre a sinceridade do momento a respeito da vontade de cada ser humano.

Nessa falta de ética, percebe-se um terrível vazio interior, uma perda generalizada da esperança e de sentido, o obscurecimento da inteligência e uma enorme carência de espiritualidade que pautaram, por exemplo, a construção da cultura ocidental.

Sem viver aguardando uma vida plena e eterna, o horizonte da esperança fica reduzido ao horizonte da expectativa. Consequentemente o mistério da presença do mal no mundo dispensa o sentido de pecado e reduz-se a uma experiência instintiva de agressividade e erro. Há uma mundanização do eterno e o tempo é considerado um recipiente vazio a ser preenchido de fatos, eventos e pessoas sem uma orientação ou um desígnio.

Tudo fica restrito a obter o melhor da vida terrena, quando aparece a enfermidade, o envelhecimento e a morte, cada ser humano deverá lidar solitariamente essa experiência sem referenciais capazes de lhe dar sentido e discernimento sobre a existência.

Para vencer essa horizontalidade da ética de quem não sabe para onde vai, é preciso trabalhar pela ética de quem tem uma meta para caminhar. Enfim, o ser humano nasceu para olhar para o alto, é peregrino do céu com os pés bem firmes sobre a terra.  O humano não nasceu para olhar somente ao redor. O animal olha para a terra e ao redor, o ser humano olha para o céu e o além. O olho do corpo vê coisas e objetos, capta as coisas visíveis. O olhar vertical olha para a eternidade escondida atrás das mesmas coisas e dos mesmos objetos. Um único olhar sobre a terra é insuficiente para esgotar toda a capacidade da força do olhar humano.

 

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano de Santa Maria e Presidente do Regional Sul 3