Bispos › 16/11/2017

“Não permitamos que nos roubem a esperança”

Dom Jaime Spengler –  Arcebispo metropolitano de Porto Alegre

Presidente Regional Sul 3 da CNBB

 No último 12 de novembro se celebrou, em Santa Maria, a 74ª Romaria da Medianeira. Um número impressionante de peregrinos de várias partes do Rio Grande do Sul se fez presente naquele momento de fé. E não só do Estado, também da Argentina havia um grupo.

O Santuário de Nossa Senhora Medianeira vai se tornando um ponto de convergência para muitos homens e mulheres marcados pela fé. Impressiona a devoção do povo. Qual a razão da confiança, do carinho, do respeito do povo para com a figura de Maria? Ela é certamente discípula da primeira hora; acompanhou de perto os acontecimentos do mistério da salvação, participou da constituição das primeiras comunidades de fé e presenciou os desafios e crises da Igreja nascente. Por isso, “se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele” (Paulo VI).

Também hoje somos desafiados por diversas situações que marcam as vidas social e eclesial. É difusa a convicção de que a falta de ética, cuja maior expressão atual é a corrupção, está instalada há décadas em diferentes âmbitos da sociedade.

Cresceu a apatia, o desencanto e o desinteresse pela atividade política, que está desacreditada devido ao comportamento de alguns agentes políticos que desonram a missão para a qual foram eleitos. Entretanto, é necessário superar tal situação urgentemente. É grave tirar a esperança de um povo!

A superação deste momento histórico requer estadistas, pessoas dispostas ao diálogo sincero e honesto, no qual as expectativas e esperanças encontrem eco. É comum ouvir que o nosso povo é acolhedor e alegre. É verdade! Não se pode, porém, esquecer que o ser humano, independentemente da situação social, aspira vida, e vida em abundância.

A nação não é feita de números, cifras e instituições. Ela é constituída, sobretudo, de pessoas. Mais importante que os votos são os cidadãos; que os indicadores econômicos, são os trabalhadores; que os índices de pobreza, são os pobres. As pessoas não podem ser reduzidas a princípios abstratos. Pessoas possuem um rosto que impele à responsabilidade real e concreta. Os indicadores são úteis e importantes, mas não possuem uma identidade e jamais tocam na carne!

O ser pessoa nos liga uns aos outros, nos torna comunidade. Eis o elemento que precisamos redescobrir em nossa sociedade! A violência crescente promove isolamento, fechamento e individualismo.

Uma compreensão limitada do que é autêntica liberdade promove uma sociedade desenraizada e priva do senso de pertença e corresponsabilidade. Uma sociedade civil será viva e vigorosa quanto mais for capaz de acolher as diferenças e os dons de cada um de seus membros; se for capaz de gerar novas vidas, cultura, trabalho digno, desenvolvimento e integração.

O resgate da ética, da justa compreensão do que significa ser pessoa inserida numa comunidade e do bem comum constitui a base para a construção de uma nação justa, solidária e fraterna.

No último final de semana, uma multidão de gaúchos e de gaúchas presente em Santa Maria contemplava e meditava as palavras de Maria aos discípulos e discípulas da comunidade nascente: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”. Não podemos deixar que nos roubem a esperança! Por isso, contemplamos Maria. Ela, no seu jeito simples, continua repetindo: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”.

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