Bispos › 26/06/2017

Não tenham medo do homem!

Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório

Esta exortação de Jesus no Evangelho deste Domingo: “Não tenham medo!”, me chamou atenção e gostaria de refleti-la um pouco com vocês.

Nós vivemos um tempo bonito em que a Igreja se autocompreende toda discípula missionária. Isto significa que todo batizado é chamado a confessar sua fé em Jesus Cristo, Salvador e Senhor, dando testemunho Dele, acreditando com o coração e confessando com a boca.

A exortação de Jesus: “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado e nada há de escondido que não seja conhecido. O que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!”, parece escrita para o momento que estamos vivendo no Brasil e no mundo.

Devemos reconhecer que no Mundo todo reina um medo generalizado. Ninguém é mais seguro de nada. Todo mundo pode ser assaltado e morto por um celular ou por uma coisa de nada.

Os ataques violentos que se sucederam nos últimos anos nas grandes cidades de países ricos, a ação do Estado Islâmico, as guerras no Oriente Médio, mas também a violência até mesmo nas nossas cidades do interior gera medo, insegurança e angústia. Até mesmo a violência nos estádios de futebol, os assaltos a mão armada, a invasão de casas, os ataques com vírus pela internet. Vem de perguntar: quem se salva? Como se proteger?

Cresce o medo de sair de noite. Muita gente se recusa a participar de encontros e reuniões por medo de ser assaltada. Outros sentem-se ameaçados no exercício de sua missão (bispos, padres, religiosos e líderes comunitários). Cresce também os controles. Há pouco passei por Milão e fui acompanhar um colega para visitar a Catedral onde se entrava com toda a tranquilidade, ao invés agora utilizam raio X e revistam tudo. Assim também para visitar a Basílica de São Pedro em Roma.

Quando Jesus diz “não tenhais medo dos homens, pois nada há de escondido que não seja conhecido” faz-nos lembrar a situação de corrupção na qual está mergulhado o nosso país. A gente se pergunta qual será a próxima delação, o próximo capítulo da novela dos milhões de desvios? Qual vai ser o próximo acusado?

Outros medos podem assolar nossas vidas, chamados fobias. Medo do escuro, dos bichos, do fechado, do novo, de falar em público, de não ser compreendido, de ser ridicularizado, medo que descubram nossos limites, até medo de Deus, de não ser aceito e amado… Claro que estas são questões mais psicológicas, mas longe da situação generalizada pela qual o mundo passa.

Como superar tudo isso?

A palavra de Jesus novamente vem em nosso socorro: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma!”.

É verdade são muitas as ameaças. É só ver como aumentaram as empresas de segurança. Por mais simples que seja uma família, sente-se insegura e na obrigação de colocar alarmes e cercas para se proteger. Contudo, não podemos nos tornar escravos dos medos que nos assolam. Precisamos criar coragem e quebrar essas cadeias invisíveis que poderiam nos aprisionar.

O caminho ou a solução em modo muito simples, novamente o encontramos no texto do evangelho que estamos meditando: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós até os cabelos de vossa cabeça estão contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”.

Portanto, se o Pai cuida dos pardais e sabe tudo de nós, “até os cabelos de nossa cabeça estão contados”, nele podemos confiar, podemos contar sempre com Ele, pois nunca nos abandonará e é Ele nossa segurança e fortaleza. Os discípulos de Jesus devem se distinguir por sua fé e confiança em Deus Pai providente.

As pessoas de fé, normalmente são mais corajosas, empreendedoras, encaram os desafios com mais serenidade, dispostas até mesmo a pagar com a própria vida se preciso for e não abandonam a missão.

Hoje, a Igreja precisa de pessoas corajosas, discípulas missionárias de Jesus, como nos propõe Aparecida nº 14: O Senhor nos disse: “não tenham medo!” (Mt 28,5). O que nos define não são as circunstâncias dramáticas da vida, nem os desafios da sociedade ou as tarefas que devemos empreender, mas todo o amor recebido do Pai, graças a Jesus Cristo pela unção do Espírito Santo. Aqui está o desafio fundamental que afrontamos: mostrar a capacidade da Igreja de promover e formar discípulos que respondam à vocação recebida e comuniquem em todas as partes, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus Cristo”.

Esta é a nossa missão: comunicar Jesus Cristo, com seu poder de dar sentido a vida das pessoas, libertando de toda forma de medo que escraviza, não os deixando determinar pelas circunstâncias, mas caminhar entre elas transformando-as.

O medo não combina com Deus, que é experiência de amor e fonte de confiança e alegria. Ao amor de Deus nada passa desapercebido. Se ele cuida das aves do céu e dos lírios do campo, não cuidará dos discípulos missionários de seu Filho, comprometidos na edificação do seu Reino?

Quem confia no Senhor nunca será confundido. Zelemos pela liberdade de filhos e vivamos como amigos de Deus. Não deixemos que o medo, o desespero e a morte habitem nossas vidas. No amor não há temor!

 

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