Bispos › 07/11/2017

O dom de si

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

Qual o segredo de uma vocação acertada e uma vida feliz? A capacidade de doar-se. O dom de si, como resposta aos apelos de Deus, o movimento de saída em direção ao outro, a superação do narcisismo e do desejo compulsivo de autorrealização, está na base de qualquer vocação. Em nossa cultura, profundamente marcada pelo individualismo, “é preciso verificar quanto as escolhas sejam ditadas pela busca da própria autorrealização narcisista e quanto ao invés incluam a disponibilidade para viver a própria existência na lógica do dom generoso de si” (Sínodo dos Bispos, Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, Documento preparatório, p. 35). Com certeza, um dos elementos que pesam na escassez de vocações sacerdotais e religiosas, bem como na dificuldade de muitos casais na vida matrimonial, é este excessivo voltar-se sobre si mesmo, que torna incapaz de ver com os olhos do outro, colocar-se no seu lugar, ir além dos seus interesses.

Foi Jesus quem disse: “Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto” (Jo 12,24). A lógica da felicidade humana não é possuir e conquistar (postos, cargos, fama, dinheiro…), mas é um processo de saída, de descentrar-se para correr o risco de viver grandes ideais. Somente se a pessoa renunciar a pautar sua vida a partir de suas necessidades conseguirá acolher o projeto de Deus à vida familiar, ao sacerdócio, à vida consagrada e até numa profissão, em vista do bem comum. A autorrealização, querida por Deus para todos, não é algo que se busca diretamente. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será acrescentado” (Mt 6,33). A generosidade na entrega é base para a felicidade.

A Sagrada Escritura está cheia de exemplos de pessoas que, acolhendo a proposta divina, se puseram a caminho. O primeiro caso típico é Abrão. Deus lhe diz “sai” e ele se move. “Vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12,1). Ainda não a conhecia, mas parte, arrisca-se, confia. O clássico exemplo é dos dois discípulos que ouviram de Jesus “Vinde e vede” (Jo 1,39). Jesus os convida a percorrer um caminho, sem ter tudo claro. Graças a esta coragem de ir e ver, os discípulos puderam ouvir sua Palavra, acompanhar seus gestos e serem seus amigos.

A entrega livre e generosa de si pede um percurso de discernimento. Parte de uma experiência de encantamento por Jesus Cristo, sua pessoa, seu Evangelho e seu projeto. Neste encontro, sempre renovado, são despertados os grandes ideais pelos quais vale a pena a doação total. Pedro diz a Jesus: “eu darei a minha vida por ti” (Jo 13,37). A fé é um elemento fundamental no discernimento vocacional. “A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir um grande chamado – a vocação ao amor – e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque seu fundamento encontra-se na fidelidade de Deus, que é mais forte do que a nossa fragilidade” (LumenFidei n. 53). O discernimento é iluminado pela Palavra de Deus. Na escuta do Espírito Santo, no diálogo com a Palavra e com as provocações da realidade deixa-se Deus falar à consciência, “onde ele está a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade” (GS 16).

O dom generoso de si faz a vida ser feliz.

 

 

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