Bispos › 03/03/2017

O espírito da quaresma

Dom Jaime Spengler – Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre

Presidente do Regional Sul 3 da CNBB

Na Quarta-feira de Cinzas os cristãos costumam ir ao templo para uma cerimônia despojada. A cerimônia poderia ser denominada quarta-feira das coisas que não contam, das coisas insignificantes, da poeira…

A caminhada quaresmal se inicia com um gesto externo simples: a imposição de cinzas sobre a cabeça dos fiéis. A forma litúrgica para a imposição de cinza é marcada por dois momentos. Primeiro a oração sobre as cinzas: “(…) Derramai a graça da vossa benção sobre os fiéis que vão receber estas cinzas, para que, prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar de coração purificado o mistério pascal do vosso Filho”. Depois a exortação proposta no momento da imposição das cinzas: “lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

Diante do ministro o fiel inclina humildemente a cabeça, recebe as cinzas e é lembrado da necessidade de tomar consciência da própria condição e de retornar ao Evangelho.

Curva-se o corpo! O fiel se dispõe a iniciar um caminho de conversão. Conversão entendida como disposição para entrar em sintonia com a versão de Deus para a humanidade: o Evangelho. Evangelho que em alguns setores da sociedade produz aversão. No entanto, para os cristãos ele é regra de vida, ou melhor, é vida!

Subjaz aos gestos e à disposição de quem participa da cerimônia, a confiança de que Alguém denominado Deus, Mistério Absoluto, Tu, Abismo insondável vem ao encontro do ser humano, oferecendo-lhe seu amor, sua presença, seus projetos.

O cristão se aproxima desse “Alguém” com o coração contrito, única porta que pode ser aberta para que entre e o tome consigo. Não adiante rasgar as vestes (Jl 2,13); o que verdadeiramente importa é o coração arrependido. Tal disposição, juntamente à decisão de cultivar no cotidiano uma sintonia com o Evangelho, é caminho privilegiado para não se deixar levar pela perversão.

Em tempos de crise de toda espécie, vale recordar a necessidade de voltar ao essencial. É preciso superar a ideologia do politicamente correto, tomar consciência de que está acontecendo uma descentralização do sagrado que aguarda da comunidade de fé atitudes corajosas e ousadas.

Não se pode, hoje, pensar o anúncio de Cristo reduzido a belas palavras religiosas em contextos mundanos, sem necessidade de testemunhar isso na carne e no cotidiano.

As tradicionais práticas quaresmais do jejum, da esmola e da oração marcam o cotidiano dos fiéis. Essas práticas, em nome de Cristo, se desdobram em misericórdia, acolhimento, diálogo, proximidade, consolo, solidariedade especialmente para com os rejeitados e excluídos da sociedade opulenta e adepta de um sistema econômico que mata.

Os cristãos são chamados ao discipulado, ao seguimento de Jesus Cristo, empenhados em viver como ele viveu, curando doentes, aliviando dores e sofrimentos, acolhendo as pessoas, que segundo os padrões sociais e religiosos de então eram vistas como as mais erradas e perdidas.

O poeta, talvez, auxilie na compreensão do espírito da Quaresma: “Se eu tivesse entranhas de misericórdia sairia… Sairia de minha casa para encontrar-me com os necessitados; de minha apatia para ajudar os que sofrem; de minha ignorância para conhecer os ignorados; de meus caprichos para conhecer os famintos; de  minha atitude crítica  para compreender os que falham; de minha suficiência para estar com os incapazes; de minhas pressas  para dar meu tempo aos abandonados; de minha preguiça para ajudar os cansados de gritar; de minha postura burguesa para compartilhar com os pobres. Quem dera que eu tivesse entranhas de misericórdia!” (F. Ulíbarri).

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