Bispos › 10/06/2017

O eterno hoje de Deus na Liturgia

Dom Aloísio Dilli  – Bispo de Santa Cruz do Sul

Os ouvintes ou leitores devem estar percebendo que nossas últimas mensagens se ocuparam com formação litúrgica, tão importante no processo de iniciação cristã e sua continuidade. Sabemos o quanto isso é valioso para bem celebrar, com participação consciente, plena, ativa e frutuosa, como pede o Concílio Vaticano II. Na reflexão que estamos iniciando hoje, nós queremos abordar um aspecto extraordinário de nossas ações litúrgicas: o eterno hoje da liturgia. Ao definirmos a liturgia sempre acabamos dizendo que sua celebração consiste em tornar presentes mistérios (acontecimentos, fatos) da história de nossa salvação, pela ação vivificante do Espírito Santo, na vida da Igreja de todos os tempos, através de uma linguagem ritual e simbólica. Na liturgia, os acontecimentos da salvação não são apenas lembrados como fatos históricos do passado distante, mas eles são celebrados, isto é, são tornados presentes para os fiéis, com todo seu valor e sentido, no hoje da história. O fato salvífico, realizado por Deus em determinado momento, torna-se hoje através do ministério da Igreja, pela ação do Espírito Santo. Não é repetição do fato histórico, mas a celebração de sua memória o torna atual e atuante no seu efeito para quem dele participa. Assim, ao celebrarmos a Páscoa, Jesus Cristo não morre de novo na cruz, para ressuscitar em seguida. Como diz a Escritura: “Ele entrou no Santuário, não com o sangue de bodes e bezerros, mas com o seu próprio sangue, e isto, uma vez por todas, obtendo uma redenção eterna” (Hbr 9,12). Esta “uma vez por todas”, torna-se hoje, atuante em nós (Igreja), pela ação do Espírito Santo e nossa participação.

Um dos textos do Evangelho, segundo Lucas, nos ajuda particularmente a entender este tema do hoje na liturgia: o discurso na sinagoga de Nazaré. Ali Jesus proclama o texto de Isaias (61,1-2ª): “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lc 4,21; cf. tb. Lc 19,9). Jesus não só explica a palavra proclamada, mas a atualiza, a torna hoje, desafiando o tempo e o ambiente atual. Nele (o Verbo) a Palavra se cumpre plenamente. É o eterno hoje de Deus, que se realizou definitivamente em Jesus e se atualiza cada vez que, de novo, é proclamada e acolhida em seu nome. Como afirma o Pe. José de Almeida: “A promessa da Escritura se cumpre em quem escuta e acolhe Jesus que a anuncia. O que se realizou no passado, quando da presença física de Jesus, realiza-se no presente nos ouvidos e na vida de quem, ouvindo, crê e, crendo, vive. A fé faz acontecer também ‘aqui e agora’ aquilo que Jesus falou em Nazaré e fez em Cafarnaum então (Lc 4,23). Não o fez em Nazaré justamente porque aí faltou a fé que ouve, acolhe e vive”. (O Pão Nosso de Cada Dia, janeiro 2013, p. 83).

Que o eterno hoje da liturgia faça acontecer o encontro com Jesus, desde o processo da Iniciação à Vida Cristã e se prolongue por toda vida na comunidade dos discípulos missionários.

 

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