Bispos › 29/09/2017

O respeito na arte

Dom Jaime Spengler – Arcebispo metropolitano de Porto Alegre e presidente Regional Sul 3 da CNBB

Há um século é comum ouvir que Deus está morto. Entretanto, devemos nos confrontar com a possibilidade de o homem estar morto, de ter se transformado em coisa, produtor, consumidor, idólatra de outras coisas (E. Fromm). Elementos dessa situação se podem colher em algumas estranhas expressões daquilo que se tem denominado arte pós-moderna.

A arte é força propulsora do bem, da fraternidade, da ética, do progresso e aperfeiçoamento do ser humano (Tolstoi). Surge aqui um desafio enorme, pois termos como bem, fraternidade, ética, progresso, humano perderam sua valência. Diante do propagado avanço das ciências e da técnica é ainda possível distinguir, por exemplo, o ser humano em sua originalidade do animal, da máquina e da coisa? O desafio já não é o de construir um novo humanismo, pois já nem sabemos mais o que diferencia o humano do não humano.

A arte expõe características históricas e culturais de determinada sociedade, tornando-se um reflexo da essência humana. Ela está em conexão com distintas dimensões que compõem a existência, como a política, a economia, a religião, a sociedade, a cultura; além disso, possui conexões com diferentes áreas do saber: Filosofia, Teologia, Psicologia, Psicanálise, Estética, Sociologia, Ética, Arquitetura, História etc.

A arte se orienta por um horizonte ético, sem permitir o relativismo irresponsável e tacanho, vulgar e laxista. Desde suas origens ela, de algum modo, sempre esteve ligada às práticas religiosas e aos elementos míticos.

A linguagem da arte é parabólica, dotada de uma especial abertura universal e influenciada por diferentes circunstâncias culturais e sociais. Por isso, as expressões de autêntica arte sabem respeitar os valores que regem uma determinada sociedade e suas referências culturais. Quando se extrapolam valores e referências culturais de uma sociedade, a insanidade faz morada na “terra dos homens”.

Quando em nome da arte se desrespeita a identidade do outro, quando uma antropologia vazia escarnece a antropologia ocidental judaico-cristã – que forjou princípios como a Declaração Universal dos Direitos Humanos –, quando se perde cada vez mais a serenidade das coisas e o sentido do mistério, então se perdem os princípios do bem e do mal. Desse modo, o que entra verdadeiramente em causa é a persistência e a continuidade da humanidade dos seres humanos.

Não se pode esquecer que uma “obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, procura descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem, das formas, das cores e dos sons. A arte é capaz de expressar e de tornar visível a necessidade que o homem tem de ir além daquilo que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito. Aliás, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e para uma verdade que vão mais além da vida cotidiana. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto” (Bento XVI).

Por isso, é inadmissível que se desconsidere o sentido ético e moral presente nas expressões artísticas de uma cultura. Além do mais, não se pode agredir de forma rancorosa, preconceituosa e desrespeitosa princípios constitucionais de um povo quando se vilipendia um culto religioso e se zomba de uma fé que produziu e produz frutos de paz, fraternidade, justiça, solidariedade, amor, caridade, perdão, misericórdia, compaixão.

Deixe o seu comentário





* campos obrigatórios.