Artigos › 24/05/2017

Ouvir os jovens

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta

No caminho do Sínodo dos Bispos sobre Os jovens, a fé e o discernimento vocacional, cuja Assembleia Geral Ordinária acontecerá em outubro de 2018, a Igreja é desafiada a crescer na atitude da “escuta”. Primeiro, porque não existe evangelização se faltar a atenta acolhida da vida das pessoas, com seus desafios e perguntas. Neste sentido, a “escuta”, das pessoas e de Deus, é uma condição para que o Evangelho penetre os corações e sacie a sede. Em segundo lugar, porque no processo sinodal, o primeiro passo é escutar o que os jovens têm a dizer. Isto porque o Santo Padre Francisco quer “pedir aos próprios jovens para ajudá-la [a Igreja] a identificar as modalidades hoje mais eficazes para anunciar a boa-nova” (Sínodo dos bispos, Documento Preparatório). A Igreja não se propõe a ensinar, mas acompanhar os jovens a acolher o chamado à alegria do Evangelho. Não se trata, portanto, de uma relação de quem já tem experiência de vida, os adultos, e ensinam quem é inexperiente, os jovens. O Sínodo é dos jovens. Eles são os protagonistas e estão “no coração” e “no centro da atenção” da Igreja. Este é o sentido e a espiritualidade de um “sínodo”: trilhar juntos o caminho.

Como precisamos aprender a escutar! Num mundo hiperconectado, precisamos voltar a aprender a escutar e a dialogar. Sim, pois a escuta é o pressuposto da fé: “Ouve, ò Israel” (Dt 6,4), é o grande preceito bíblico. A escuta atenta da Palavra move, desde o interior, a uma resposta livre e generosa a Deus, a fé. A escuta atenta e crítica da realidade permite-nos, a partir da fé, discernir os sinais de Deus, de vida ou de morte existentes no mundo. A escuta faz-se ainda mais necessária no ambiente familiar. Os pais sabem que a educação é um paciente processo de escuta e diálogo com seus filhos. Isto se torna ainda mais necessário na fase da adolescência e juventude. Quantas vezes ouvimos expressões como: “Ninguém me escuta. Ninguém me entende.” Quem escuta, valoriza, acolhe, demonstra amor e compreensão, mesmo que, no processo, nem sempre se concorde com a posição da outra pessoa. Mas o importante foi que “fui ouvido”. Afinal, foi essa a atitude que Jesus viveu e nos ensinou: o olhar amoroso ao jovem (Mc 10, 21); o caminhar ao lado e ouvir atentamente os dois discípulos de Emaús (Lc 24,13-35); o fazer-se próximo como o Samaritano (Lc 10 25-37); a escuta misericordiosa e sem preconceitos da vida da mulher samaritana (Jo 4,1-41).

O Papa nos pede para escutarmos os jovens. Não somente os jovens presentes em nossos grupos e comunidades, mas também aqueles que estão mais distantes (cf. Documento Preparatório, Questionário). Escutar com humildade e sem preconceitos. Todas as Paróquias e grupos organizados façam chegar o questionário que foi preparado para o Sínodo a todos os jovens. Que todos tenham a possibilidade de manifestar suas preocupações, interrogações, esperanças, alegrias e, até, indignações. Que em nossas comunidades eles tenham espaço e sua palavra seja ouvida. Aproveitemos este momento de graça que é o Sínodo, para aprendermos a escutar os jovens. Afinal, o educador e evangelizador precisam escutar sempre!

Sabendo escutar, será possível acompanhar o caminho dos jovens e fazer com eles um processo de amadurecimento na fé e construção de um projeto de vida. “Acompanhar os jovens exige sair dos próprios esquemas pré-confeccionados, encontrando-os ali onde estão, adequando-se aos seus tempos e aos seus ritmos; significa também levá-los a sério em seu esforço para decifrar a realidade em que vivem e para transformar um anúncio recebido em gestos e palavras, no esforço cotidiano para construir a própria história e na busca mais ou menos consciente de um sentido para as suas vidas” (Documento Preparatório, Cap. III).

 

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