Bispos › 24/07/2017

Sobre o amor na família (II) – Amoris Laetitia

Dom Jaime Spengler – Arcebispo metropolitano de Porto Alegre 

Presidente do Regional Sul 3 da CNBB

Sempre que alguém assume o ministério de Bispo de Roma, assumindo também o título de Papa, essa pessoa expressa um estilo de vida, um modo característico de pensar, um dinamismo próprio no exercício de seu ministério.

Com o Papa Francisco não foi diferente. Ele tem trazido uma primavera de alegria, esperança e simplicidade para a Igreja Católica. Basta recordar o gesto realizado quando ele apareceu no balcão da Basílica de São Pedro: disse “boa noite” e inclinou-se diante do povo, pedindo que as pessoas reunidas na Praça de São Pedro rezassem por ele.

Em sua primeira exortação apostólica, intitulada “A alegria do Evangelho”, ele afirma que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”c (n.1). E continua: “quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus, renasce sem cessar a alegria”. O objetivo dessa exortação é “convidar os fiéis cristãos para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja”.

A nova etapa evangelizadora perpassa, certamente, pela realidade da instituição família, célula fundamental da sociedade humana. Ao convocar, em 2013, a Assembleia do Sínodo, o Papa Francisco quis que as dioceses de todo o mundo fossem consultadas a respeito da realidade das famílias. Para tanto, foram enviados, a diversos setores da Igreja, questionários, a fim de recolher elementos necessários para uma reflexão aprofundada sobre a realidade familiar.

Os questionários suscitaram ampla reflexão sobre a pessoa humana, sua dignidade, direitos, deveres, enfim, sobre sua vocação última. Isso implicou tocar aspectos importantes: “novas” formas de família, abordagens, configurações, inclusões. Tematizou ressentimentos, culpas, chagas, dores e alegrias. Abordou a situação de famílias afastadas, caladas, feridas, refugiadas. O questionário pretendeu tocar uma realidade muito presente e próxima de todos, especialmente das comunidades eclesiais. Sua intenção fundamental era ouvir o maior número possível de pessoas, de famílias para, a partir daí, propor indicações para um comprometimento eclesial mais vigoroso. Compromisso marcado por um olhar de ternura e misericórdia, segundo os critérios do Evangelho de Jesus Cristo, que deseja a vida para todos.

Não se quer mudar a doutrina, mas ampliar o modo como a Igreja a compreende.

Papa Francisco diz que os dois anos de reflexão que o caminho sinodal proporcionou foram uma riqueza. Por isso, a exortação apostólica “Sobre o amor na família” “aborda, com diferentes estilos, muitos e variados temas” (n.7). O caminho realizado “se revestiu de uma grande beleza e proporcionou muita luz”. O texto publicado recolheu “contribuições dos dois Sínodos recentes sobre a família”; também foram acrescentadas, diz o Papa, “outras considerações que possam orientar a reflexão, o diálogo ou a práxis pastoral, e simultaneamente ofereçam coragem, estímulo e ajuda às famílias na sua doação e nas suas dificuldades” (n.4).

Todo o trabalho realizado visa “cuidar com amor da vida das famílias, porque elas não são um problema, são sobretudo uma oportunidade” (n.7).

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