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Tempo de escutar Jesus e segui-Lo sem medo

No segundo domingo da quaresma, a liturgia nos convida a refletir e rezar sobre a Transfiguração de Jesus. Como o papa Francisco escreveu sua mensagem quaresmal deste ano a partir desse texto, damos a ele a palavra.

Neste acontecimento, vemos a resposta do Senhor a uma falta de compreensão manifestada pelos seus discípulos. De fato, pouco antes, registra-se uma verdadeira divergência entre o Mestre e Simão Pedro; este começara professando a sua fé em Jesus como Cristo, o Filho de Deus, mas em seguida rejeitara o seu anúncio da paixão e da cruz. E Jesus censura-o asperamente: «Afasta-te, satanás! Tu és para Mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mt 16, 23). Por isso, «seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte» (Mt 17, 1).

O Senhor toma-nos consigo e conduz-nos à parte. Embora os nossos compromissos ordinários nos peçam para permanecer nos lugares habituais, transcorrendo uma vida quotidiana frequentemente repetitiva e por vezes enfadonha, na Quaresma somos convidados a subir «a um alto monte» juntamente com Jesus, para viver com o povo santo de Deus uma particular experiência de ascese.

A ascese quaresmal é um empenho, sempre animado pela graça, no sentido de superar as nossas faltas de fé e as resistências em seguir Jesus pelo caminho da cruz. Para aprofundar o nosso conhecimento do Mestre, para compreender e acolher profundamente o mistério da salvação divina, realizada no dom total de si mesmo por amor, é preciso deixar-se conduzir por Ele à parte e ao alto, rompendo com a mediocridade e as vaidades. É preciso pôr-se a caminho, um caminho em subida, que requer esforço, sacrifício e concentração, como uma excursão na montanha.

Para o «retiro» no Monte Tabor, Jesus leva consigo três discípulos. A Jesus, seguimo-Lo juntos; e juntos, como Igreja peregrina no tempo. O caminho quaresmal é sinodal. E aqui chegamos ao momento culminante: Jesus «Se transfigurou diante deles: o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz» (Mt 17, 2). A beleza divina desta visão mostrou-se incomparavelmente superior a qualquer cansaço que os discípulos pudessem ter sentido quando subiam ao Tabor.

O papa propõe duas ‘veredas’ para chegar com Jesus à meta: escutar Jesus: “Escutai-O”; e acolher o seu convite: “levantai-vos e não tenhais medo”. A Quaresma é tempo de graça na medida em que nos pusermos à escuta d’Ele, que nos fala, pela Escritura e pelos irmãos; e nos dispomos a caminhar seguindo «apenas Jesus e mais ninguém». Desçamos à planície e que a graça experimentada nos sustente para sermos artesãos de sinodalidade na vida ordinária das nossas comunidades.

Para refletir: O que posso fazer para escutar mais e melhor Jesus? Com quem preciso subir ao monte para ver Jesus e descer à planície para caminhar na sinodalidade e dar de comer? Estou disposto a pagar o preço para chegar a ver a luz de Jesus?

Textos bíblicos: 2Tm 1, 8-10; Mt 17, 1-9; Sl 32(33).

Dom Jaime Pedro Kohl – Bispo de Osório