Bispos › 02/11/2017

Uma multidão imensa que ninguém podia contar

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen 

Há santos com nome próprio, santos conhecidos em todo o mundo e com um dia próprio no calendário da Igreja. Mas existem outros que não se celebram porque são mais que os dias do ano. Além destes, há também uma multidão de santos anônimos, que são todos aqueles que agradaram a Deus através de uma vida honrada e digna, incluindo mesmo pessoas que não foram batizadas. É esta «multidão imensa que ninguém podia contar» que nos fala o livro do Apocalipse hoje (Apocalipse 7,9)  . Para comemorar todos estes santos, estabeleceu-se a festa que celebramos.

Mas serão os santos e a santidade algo que passou de moda? Comecemos por reconhecer que muitos cristãos têm uma ideia falsa dos santos canonizados. Estávamos habituados a ver os santos ligados a lendas piedosas, a histórias deslumbrantes; eram vistos como heróis inatingíveis, pessoas mais dignas de elogio e admiração do que imitação. Todavia, os santos eram e são pessoas de carne e osso, com qualidades, defeitos e problemas como todos; distinguiram-se dos demais porque tomaram a sério o Evangelho; quiseram ser discípulos de Cristo para se assemelharem a Ele o mais possível. O extraordinário da sua vida estava no seu interior: tiveram uma vivência intensa da fé, da esperança e do amor.

Os santos não foram pessoas que viveram fora da realidade. Não há santo possível sem valores humanos e sem grande maturidade pessoal; porque não pode haver santo sem amor a Deus e aos irmãos. E o amor não é passivo, mas ativo, altruísta e, de certo modo, revolucionário.

Santos são todos aqueles que percorrem o caminho de santidade indicado pelas Bem-aventuranças que lemos hoje no Evangelho (Mateus 5,1-12 a). Eles puseram em prática na sua vida o programa do Reino de Deus contido nas Bem-aventuranças. Foram cristãos de verdade, pois se mostraram totalmente disponíveis para o serviço de Deus.

A santidade cristã não está ligada a um estilo de vida ou a uma época e, por isso, nunca passará de moda. Há tantos tipos e vocações de santos e de santidade quantas situações humanas existem. É que o Espírito do Senhor sopra onde quer e Deus está sempre presente no coração de todos aqueles que lhe respondem sem condições.

Olhemos para a Virgem Maria. Da sua vida sabemos muito pouco. Os Evangelhos quase nada nos falam dela. Em todo o caso, tornou-se a mais santa e a mais perfeita discípula de Jesus. A sua santidade não se fundamentou em milagres e coisas extraordinárias. A Virgem Maria é santíssima porque esteve sempre atenta à voz de Deus, sempre fiel ao Senhor e sempre disponível à vontade de Deus. É santa porque, tocada pelo amor de Deus, tornou-se uma pessoa simples, com um coração humilde, fiel e bom.

Na medida em que, como Maria, vivemos a santidade de Deus, vamo-nos transformando em discípulos missionários. Como nos recorda o Papa Francisco, na exortação Evangelii Gaudium, “em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se discípulo missionário (cf. Mateus 28, 19). Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização” (EG 120).

Agradeçamos a Deus tantas testemunhas que nos precederam e peçamos a Graça de sermos fiéis ao nosso Batismo, para um dia, chegarmos ao céu.

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