Notícias › 19/01/2018

Venina Gonçalves e o elixir do Litoral

Venina Gonçalves ainda cultiva a tradição de preparar ervas medicinais para produtos terapêuticos, muito procurados nas comunidades de Mampituba e cidades vizinhas. Confira a última reportagem da série sobre a 41ª Romaria da Terra.
Por Anelise Durlo
Comum nas cidades do interior, a tradição do uso de ervas medicinais para aliviar dores e mal-estar é muito utilizada há gerações como terapia alternativa no tratamento de sintomas e doenças. Na comunidade de Roça da Estância, no município de Mampituba, não é diferente. Venina da Silva Gonçalves, 65 anos, está entre as oito mulheres que se dedicam a colher e preparar as ervas medicinais para a fabricação dos elixires, um preparado líquido que combina diferentes tipos de plantas com propriedades terapêuticas.
Muito conhecida na comunidade, por ela já passaram diferentes políticos da cidade, familiares, amigos, moradores e pessoas de outros municípios, sobretudo Torres, que ouviram a respeito dos benefícios dos elixires. Segundo Venina, entre os preparados de ervas mais procurados estão os para a gripe, para os nervos e o ácido úrico, utilizado em dores e inchaços nos pés e nas mãos. Já os elixires da menopausa e da mulher também são muito buscados, pois atenuam os desconfortos, como os calores, durante esse período.
Ela, inclusive, faz uso dos remédios e garante que são muito eficazes. “Tenho 65 anos e sempre tomei. Quando tinha 46 anos, tomei o elixir para menopausa e é um santo remédio para aqueles calorões”, assegura.
Desde 2006, o Ministério da Saúde possui uma Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, aprovada pelo decreto nº 5.813, que regulamenta e estabelece diretrizes para o desenvolvimento e o uso das ervas no país. O programa também vem ampliando as alternativas de opções terapêuticas oferecidas aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).
Igualmente, em 2010, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda divulgou uma lista com 66 plantas medicinais – tais como o alecrim, a erva doce, a alcachofra, a malva, entre outras – , orientando a utilização das drogas vegetais em casos de doenças de baixa gravidade. A lista do órgão levou em consideração as plantas que têm seus benefícios comprovados cientificamente.
Envolvimento com as ervas medicinais
Nascida na comunidade de Roça da Estância e professora das séries iniciais do Ensino Fundamental, Venina se aposentou após 25 anos atuando na educação das comunidades de Mampituba. Além de se dedicar ao plantio de verduras e legumes em uma propriedade que tem na região, foi nessa época também que começou a participar de cursos sobre ervas medicinais e encontros do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), em Três Cachoeiras. “Fizemos os cursos e nos reuníamos na sala da Casa Paroquial. Mas só depois que começamos a fazer os elixires, quando surgiram os livrinhos. No início fazíamos muito o da gripe e o digestivo”, conta.
Apesar de atuar na confecção dos elixires há pelo menos 20 anos, Venina garante que a sabedoria do uso das plantas medicinais é antiga e aprendeu ainda com a mãe. “Minha mãe dizia que chá de folha de laranja era muito bom para dor de cabeça, nunca me esqueço. E as mães aqui nos ensinavam a fazer os chás caseiros, porque era difícil ir ao médico naquela época”, relembra.
Em relação à procura dos medicamentos caseiros, ela observa que tem aumentando nos últimos anos. “Muitas pessoas têm nos procurado, pois reclamam que os remédios da farmácia fazem bem para uma coisa, mas mal para outra. Claro que não vamos dizer para deixarem de fazer o tratamento [convencional]. Mas sabemos que o remédio caseiro é mais saudável. Eu tiro por mim, que só fui ao hospital para ganhar os quatro meus filhos”, salienta.
Venina ainda mostra a Farmácia Caseira Comunitária, a menos de dois minutos de caminhada da sua casa, que fica em uma sala na antiga Casa Paroquial, na sede da comunidade. É lá onde ela e mais sete companheiras trabalham alternadamente na produção dos medicamentos caseiros.
Entre as estantes, armários, uma pequena cozinha e uma sala de secagem, Venina exibe com orgulho o caderno em que são registrados nome, cidade e valor da doação de usuários dos elixires. Todo o trabalho feito na farmácia é voluntário. “Gostamos muito desse trabalho e temos muito cuidado com as plantas. Também pedimos às pessoas que não coloquem veneno por perto, pois se você usar essas plantas que estão envenenadas, ao invés de fazer bem vai fazer mal”, alerta.
Os custos dos materiais usados na confecção dos elixires, como cachaça, vaselina para pomadas, vidros e etiquetas são adquiridas por meio da venda dos remédios caseiros – comercializados a um preço simbólico. A farmácia também recebe contribuições da comunidade, através de doações.
Os elixires são feitos a partir da extração da planta, curtidas na cachaça ou no álcool de cereal, durante 20 a 30 dias. Depois, misturam-se as soluções das diferentes ervas que compõem um elixir. Se feitos com plantas colhidas na hora, a validade do produto terapêutico é de um ano, já se feitas de ervas secas, podem durar até dois anos.
Para Venina, estar envolvida com ervas medicinais e atuar na comunidade, preparando os medicamentos caseiros e orientando a população, é uma satisfação. “É um trabalho comunitário e não para ganhar lucro. Acho importante também, porque hoje as pessoas se intoxicam muitos com os remédios [convencionais], que são feitos de plantas, mas tem muito químico. E o nosso aqui é caseiro. Então, se as pessoas se conscientizassem mesmo, usavam bem mais as ervas medicinais”, opina com um sorriso no rosto.
Romaria da Terra
Sediada pela primeira vez no Litoral Norte, a 41ª edição da Romaria da Terra do estado traz como tema “Mulheres Terra: resistência, cuidado e diversidade” e objetiva reunir a comunidade e as lideranças locais para promover o debate de assuntos relacionados às tradições culturais como o cultivo de plantas medicinais, os direitos femininos e no meio rural e as reivindicações da população. O encontro ainda busca fortalecer o diálogo entre pastorais, comunidade e movimentos sociais e rurais e ocorre no município de Mampituba, em 13 de fevereiro.
Segundo Venina, o encontro deve congregar diversos grupos a fim de discutir as questões dos usos da terra e ainda alertar para os cuidados com o meio ambiente. “A nossa terra está se acabando de tanto colocarem veneno. Por isso, é importante que aconteça a Romaria, ainda mais que o tema fala da mulher. E nesse trabalho que fazemos na farmácia comunitária, as mulheres são a maioria que gostam de mexer e cuidar das plantas medicinais”, completa.
Evento
A Romaria da Terra do estado é organizada em conjunto pela Pastoral da Terra do Rio Grande do Sul, Diocese de Osório e CNBB Regional Sul III. A estimativa é que mais de dez mil participantes das dioceses e arquidioceses do estado e do sul de Santa Catarina compareçam no evento. Então traga sua caravana e participe.
Mais informações contate a assessoria de comunicação da Diocese de Osório pelo e-mail pascom@diocesedeosorio.org ou telefone/WhatsApp (51) 98410-1945.
Esta é a terceira e última matéria da série de reportagens “41ª Romaria da Terra do RS e as Mulheres”, para ler as duas matérias já publicadas anteriormente, acesse https://goo.gl/fbE6go e https://goo.gl/fsqEbV