Artigos, Bispos › 21/09/2022

A caridade nos liberta

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! A Palavra de Deus, com sua sabedoria divina, quer orientar a nossa vida, colocando diante dos nossos olhos e na nossa consciência as milenares dicotomias humanas, geradas a partir da tensão entre justiça e injustiça, entre pobreza e riqueza, poder e opressão.

O homem marcado pelo pecado tem a tendência, dentro de si, de prevalecer sobre os outros com os meios que estão ao seu alcance. O ter e o poder são dramaticamente pensados como um negócio privado, de foro íntimo da minha vida, da minha consciência, e, muitas vezes, prescindindo de qualquer honestidade e respeito humano.

O Livro do profeta Amós (Am 8,4-7) faz uma referência sobre este modo de viver do homem, que causa sofrimento e dor em tantos irmãos e irmãs. O profeta é o homem de Deus, que vê a realidade ao seu redor, ouve o clamor do povo, se coloca na escuta de Deus e fala em nome de Deus. Em geral, os profetas foram homens que denunciaram as situações de injustiças e convocaram o povo à conversão, através do anúncio da Palavra de Deus. Lembravam ao povo que Deus não se mantém indiferente às situações que oprimem e enganam os pobres e humildes, mas se envolve com a humanidade para conduzi-la, a partir do seu interior, dos seus pensamentos e sentimentos.

Como cristãos, podemos manter fechadas as portas do nosso coração e não dar ouvidos ou a devida importância à Palavra de Deus, e continuar o peregrinar da nossa vida, com as nossas “falsas seguranças”, que um dia terminarão no vazio, junto com as coisas desse mundo. Ou podemos colocar a nossa confiança nas realidades que não passam, sendo instrumentos do amor e da compaixão do Senhor, na vida daqueles que dependem da generosidade do nosso coração para viver com mais dignidade.

Quando abrimos as portas do nosso coração para acolhermos a Palavra de Deus, deixando que ela frutifique e oriente a nossa vida de peregrinos nesse mundo, e as nossas ações de amor-caridade, nos libertamos, crescemos espiritualmente e começamos a ter parte do tesouro dos céus: a vida eterna.  É o tesouro preparado para nós e para todos aqueles que creem no ato de amor, cumprido por Jesus Cristo sobre a cruz.

O Senhor, através da sua Palavra, nos convida a refletir profundamente sobre a nossa adesão a Ele, sobre o nosso seguimento como discípulos. Escolher Jesus como amigo, como Senhor e Mestre, para amá-lo plenamente, pode mudar os nossos projetos, reorganizar as nossas relações familiares, a nossa vida, e até os nossos sofrimentos e cansaços adquirem outro sentido quando nos colocamos na presença de Deus, ou deixamos o Senhor fazer parte da nossa vida.

A sua presença redimensiona as nossas ações, não porque não temos valor, mas porque, colocando o Senhor no centro do nosso coração, dando prioridade às coisas de Deus, à sua Palavra e ao Reino de Deus, todo o restante assume um sentido novo em nossa vida. Quando a nossa existência, as nossas relações fraternas, o nosso viver e sofrer têm Jesus no centro, quando assumimos o Evangelho como critério no agir e no pensar, tudo se torna “meio para caminhar seguindo os passos do Senhor Jesus”. Porque Ele é o caminho, a verdade e a vida que nos conduz ao Pai.

+ Dom José Gislon, OFMCap. – Bispo Diocesano de Caxias do Sul