Artigos, Bispos › 10/04/2019

A cruz de Cristo, nossa esperança

A tentação é não olhar para Ele no alto da cruz. “Ele não tinha beleza e nem aparência para atrair nosso olhar, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo” (Is 53,3). Contudo, os discípulos de Jesus não podem abandoná-lo no momento do seu sofrimento extremo: “Fiquem aqui e vigiem comigo” (Mt 26,39), pediu Jesus aos seus discípulos atordoados e medrosos. A Via Sacra, o caminho sagrado de Jesus até sua morte na cruz, tornou-se uma devoção muito popular, especialmente no tempo da Quaresma. Rezamos com Jesus, contemplamos a Ele, para nos tornarmos parecidos com Ele, como nos diz Paulo: “Quero conhecer a Cristo, o poder da sua ressurreição e à participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos” (Fl 3,10-11).

A Via Sacra nos fixa o olhar e o pensamento em Jesus Cristo, na adoração a Ele, “porque pela vossa santa cruz remistes o mundo”, repetimos. Na sua entrega na cruz nos trouxe a salvação. Contemplá-lo ajuda a gravar em nossos corações, mais do que o rosto no pano de Verônica, seus gestos, sua vida, sua entrega. Como não admirar-se diante da sua liberdade interior, de sua vida totalmente entregue ao Pai que o chamou de “meu filho amado” (Mt 3,17) e do Espírito Santo que o consagrou e moveu a fazer o bem? (cf. Lc 4,16). Totalmente livre de qualquer condicionamento interior e pressão exterior, “amou até o fim” (Jo 13,1), manifestando sua entrega incondicional pelo Pai e por nós. “Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente. Tenho o poder de dar a vida e o poder de recebê-la” (Jo 10,18). O seu caminho foi de sofrimentos e quedas por causa da violência, mas não de desânimo e prostração.

Mas, na cruz de Cristo está estampada a paixão do mundo! Assim disse nosso Papa, na Via Sacra da Jornada Mundial da Juventude, no Panamá: “O caminho de Jesus para o Calvário é um caminho de sofrimento e solidão que continua nos nossos dias. Ele caminha e sofre em tantos rostos que padecem a indiferença satisfeita e anestesiante da nossa sociedade que consome e se consome, que ignora e se ignora na dor dos seus irmãos.” Com precisamos da oração da via sacra para nos arrancar do cômodo mundo em que vivemos, quando nem sequer passamos pelos lugares onde há sofrimento ou os escondemos, pois a “via sacra” pode atrapalhar a triunfal “via do sucesso” que buscamos. “Foi difícil reconhecer-Vos no irmão sofredor: desviamos o olhar, para não ver; refugiamo-nos no barulho, para não ouvir; tapamos a boca, para não gritar” continua dizendo Francisco. A contemplação das dores de Cristo nos arranque de nossa indiferença. A Via Sacra de Cristo “prolonga-se numa sociedade que perdeu a capacidade de chorar e comover-se à vista do sofrimento” (Francisco).

Mas, sobretudo, seguimos os passos do Crucificado porque reconhecemos nele o Ressuscitado. “Com Cristo, é também o grito da fé que transforma a morte em vida, o desespero em esperança” (CNBB Sul3, 2019). No Crucificado-Ressuscitado temos a certeza que Deus tem ouvidos e acolhe todo o grito que dirigimos a Ele. Por isso, podemos afirmar “Ave crux, spes unica” salve a cruz, única esperança.

+ Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta