Artigos, Bispos › 28/01/2020

A fidelização

Uma das questões centrais da vida cristã é a pertença a uma comunidade de fé. Em nossas Diretrizes para a Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2019-2023) o critério da vida comunitária está muito presente, sobretudo quando se propõe que a Igreja seja formada de muitas comunidades eclesiais missionárias, que se encontrem regularmente, que se conheçam pelo nome, sejam alimentadas pela Palavra e vivam a caridade entre si e para os de fora. Todas as “pequenas comunidades” se encontram no domingo para a celebração eucarística na sua Paróquia ou a celebração do culto na sua comunidade. Este é o ideal proposto na Sagrada Escritura. Portanto, nenhuma novidade. O que é novo é a necessidade que todos nós temos de pertencimento, de sentirmo-nos vinculados. A constituição destas pequenas comunidades, grupos de reflexão, grupos de jovens são plurais. O importante é o sentido da comunhão entre si e com a Igreja. Cada grupo é a Igreja de Cristo presente, que caminha como discípulos dele e quer crescer, aprofundar e viver sua fé neste contexto de tantos desafios.

Sabemos que a questão da fidelização não é algo somente da Igreja. As empresas, as lojas, os bancos e tantos outros pedem de seus clientes uma fidelização. Contudo, o mundo é plural, graças a Deus. Isto significa que ninguém se sente obrigado a seguir o que outros lhe dizem. O importante é criar convicções internas. Isto também na vivência de nossa fé. Quando falamos disso, vem-nos logo à presença a missão dos pais e, depois, da Iniciação à Vida Cristã, que nunca pode prescindir de anunciar integralmente o evangelho de Cristo. Um tempo que não tinha como principal preocupação a formação integral dos batizados talvez não colocava em primeiro lugar a necessidade do anúncio da Palavra de Deus e da vivência fiel na sua comunidade de fé.Muitas vezes, nas missas em que celebramos o sétimo dia de algum falecido, estão presentes familiares parentes. Que bom. Sejamos acolhedores destes que nestes dias especiais vem até nós. Quando sou eu que presido, costumo recordá-los, os vivos aí presentes e manifestar a solidariedade da Igreja com eles. Inclusive temos algum rito especial para isto na celebração, um cartão, uma vela, etc. Porém, muitos destes não são fieis frequentadores de uma comunidade eclesial, infelizmente, não se sentem pertencentes. Alguns até transportam para a relação com Deus os vínculos comerciais que já estão entranhados em nós.

A alegoria da ovelha e do rebanho, contada por Jesus no seu evangelho (Jo 10,1-18) ajuda-nos a entender a questão da pertença. O Bom Pastor conhece e dá a vida por suas ovelhas (v.14 e15). Ele, de fato, nos conhece mais do que nosso autoconhecimento. Ele pede que é preciso ouvir sua voz e segui-lo. A alegoria mostra exatamente isto: é preciso treinar nossa escuta da Palavra, para conhecer a Cristo e ter a vida nele. Se não nos educamos num caminho de fé, será bem difícil reconhecer o Pastor. Então, sem surpresas, alguns não sentirão sua vinculação única com Jesus Cristo, que já recebemos no nosso batismo, e com a Igreja, presente na nossa comunidade, santa e pecadora.

Com quem estabelecemos nossos vínculos pela fé? Em primeiro lugar, com a Santíssima Trindade, pelo nosso batismo. E a partir dela, com nossa Igreja, família de todos os que são de Cristo, sua presença no mundo e na eternidade. Quem tem um vínculo de fidelidade sabe diferenciar o que é permanente, como no matrimônio ou na vida sacerdotal, do que é periférico, como a personalidade e os pecados dos membros. Sejamos fiéis, como a palavra já diz.

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta