Artigos, Bispos › 22/10/2021

A Missão na Era Digital

Outubro é o mês para rezar e refletir sobre a missão dos cristãos no mundo. Durante séculos a preocupação da Igreja tem sido levar o anúncio da salvação em Cristo a todos os povos da Terra. A denominada missão ad extra sugere ultrapassar os limites geográficos e culturais para que o mandato missionário de Jesus Cristo se realize: Fazei todos os povos discípulos meus (cf. Mt 28,19). Hoje, entretanto, as fronteiras se dissolveram e encontram-se novos desafios para o anúncio da fé. Muito diferente dos desafios da geografia e da cultura, se impõe a questão das novas tecnologias da informação e seu impacto sobre a vida das pessoas.

A fé passou a ser transmitida e experimentada através de plataformas multimídia. Se conectarmos a internet, nos depararemos com um oceano de possibilidades para acessar experiências com o sagrado. Não dá para subestimar e nem supervalorizar tais experiências. O certo é que estamos diante de uma nova forma de vivência religiosa.

O desafio consiste em investigar a relação do sagrado experimentado, tradicionalmente, no espaço presencial com o sagrado reconstruído pela mídia moderna. Diante das novas possibilidades de comunicação e dos novos tipos de relacionamentos que a mídia possibilita, a religião também interage de forma diferenciada com seus fiéis. Há muitas perspectivas e preocupações. O ser humano atual é informado e conectado, acessa dados e vive na ambiência digital. É muito difícil anunciar algo absoluto numa cultura formada por verdades subjetivas. No pluralismo não se aceita mais uma só verdade. As pessoas preferem fazer muitas escolhas, ter muitas possibilidades, e não ter a existência marcada por uma só direção. A maioria das pessoas declara-se crente, mas, também é tentada a seguir os apelos de quem privatiza a religião no reduto do provisório e do ocasional.

Hoje o desafio da missão é narrar Deus numa sociedade marcada pela era digital, plural e altamente informada. A grande questão que se impõe hoje para a missão não é como dizer as coisas, mas o que dizer! Para o apóstolo São Paulo a dificuldade era como chegar às pessoas e aos povos, porque ele sabia o que dizer. Atualmente, o problema não é mais como chegar às pessoas, mas o que dizer para elas, porque se multiplicam os canais de comunicação e fragmentam-se os conteúdos. Apesar de tudo, compreende-se que o impulso de comunicar é o fundamento para a missão, como bem afirmou São Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: Em cada nova etapa da história, a Igreja, impulsionada pelo desejo de evangelizar, não tem senão uma preocupação: quem enviar para anunciar o mistério de Jesus? Em que linguagem anunciar esse mistério? Como conseguir que ressoe e chegue a todos os que devem escutar?

O tempo fascinante no qual a missão cristã atual se depara é mais positivo do que negativo. As chances de anunciar o Evangelho se multiplicaram, pois o acesso está mais fácil, os conteúdos podem ser mais bem disponibilizados e a humanidade continua procurando um sentido.

Dom Leomar Antônio Brustolin – Arcebispo Metropolitano