Artigos, Bispos › 26/06/2020

“A Palavra de Deus, porém, não está acorrentada” (2 Tm 2,9)

A pandemia do coronavírus abalou a rotina do mundo inteiro. Também descontruiu os planejamentos pastorais da Igreja, ações pastorais, catequese foram canceladas. Celebrar a Eucaristia e outros sacramentos com a comunidade, fazer romarias, festas de padroeiros foram adiados, mas por razões muito justas: proteger vidas.

Tudo isto começou na metade da Quaresma, afetando diretamente a Semana Santa, o Tempo Pascal e agora o mês de junho repleto de grandes santos, entre os quais cito: Santo Antônio, São Luiz Gonzaga, Natividade de São João Batista, Santo Irineu de Lion, São Pedro e São Paulo. Também celebramos em junho a solenidade do Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria.

Neste período, os apóstolos Pedro e Paulo foram citados repetidas vezes nos textos litúrgicos e bíblicos, particularmente nos Atos dos Apóstolos, lido durante o Tempo Pascal. Novamente no domingo será celebrada a solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo. A vida deles e o exercício de seu ministério apostólico projetam luzes sobre a Igreja e sua missão evangelizadora no atual contexto. Ajudam a viver a fé, ser fiel em meio aos sofrimentos e novas dificuldades.

Os dois apóstolos foram impedidos em vários momentos de cumprirem a missão evangelizadora. Tiveram proibições verbais, ameaças, expulsão de lugares, castigos e também longos períodos na prisão. Todas estas limitações não impediram e não desanimaram Pedro e Paulo de viveram a vida cristã e a missão de anunciar o Evangelho. Paulo dá o seguinte testemunho em 2 Timóteo 2, 8-10: “Lembra-te de Jesus Cristo (…) pelo qual eu tenho sofrido até ser acorrentado como um malfeitor. A palavra de Deus, porém, não está acorrentada. Por isso suporto tudo, por causa dos eleitos, para que eles também alcancem a salvação que está no Cristo Jesus com a glória eterna”.

As limitações de locomoção, o distanciamento social, as portas fechadas das igrejas impõem muitos limites para o corpo. Alguns podem entender que, por causa destas limitações, não existe a possibilidade de evangelizar e que não se pode viver como cristãos. Aqui ecoa fortemente a palavra de São Paulo: A palavra de Deus, porém, não está acorrentada.

Quando Pedro e Paulo começaram a evangelizar as estruturas da Igreja eram mínimas. Tudo estava para ser começado e cada dia novos desafios pastorais iam surgindo e novas respostas eram necessárias. Desde lá até hoje, a Igreja teve que criar muitas estruturas para servirem a evangelização. Porém as mesmas, quando superadas ou inadequadas acomodam ou até impedem o vigor missionário. Encanta olhar para Pedro e Paulo e ver neles o vigor missionário que os fez encontrar novas respostas. Nunca relativizaram o Evangelho ou deixaram de pregar o seu essencial. Não se comportaram como camaleões que mudam de cor conforme as circunstâncias. Também, nunca se ficará sabendo ao certo, de quantos membros vivos da Igreja encontram meios para evangelizar neste período de pandemia onde as estruturas e os meios habituais “normais” se mostram insuficientes. Vivemos uma época favorável para encontrar meios adequados para anunciar o mesmo Evangelho, aquele de Pedro e Paulo.

O livro de Atos dos Apóstolos 12, 5 diz: “Enquanto Pedro era mantido na prisão, a Igreja rezava continuamente a Deus por ele”. Naquele tempo Pedro, hoje o Papa Francisco e tantos bispos e padres não podem estar no meio do povo e nem rezar presencialmente com ele. Mas isto não impede que o papa, os bispos, padres e os fiéis leigos rezem continuamente. Estamos impedidos para fazer algumas ações pastorais, mas temos mais tempo para rezar, inclusive pela Igreja.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo