Artigos, Bispos › 30/04/2020

A promessa desse dom é para vós

Quando nos acomodamos na fé, facilmente deixamos de ter o necessário sentido crítico para alcançar tudo o que nos é reservado pelo Batismo. Por sua vez, o Batismo não é um acontecimento circunscrito a uma data, mas uma nova vida pela qual temos de lutar, sempre na lógica da identificação com Cristo. Assim sendo, o dom batismal não pode ser derramado em vão, daí o Apóstolo exortar à Conversão.

Diante da vocação batismal é necessária uma contínua vigilância, algumas das vezes uma autocrítica, onde deveremos alcançar a profundidade da santidade a que somos chamados. A graça que pelos sacramentos recebemos não são dados adquiridos, mas uma contínua e zelosa correspondência de amor ao Amor que foi derramado nos nossos corações. O dom que nos fala o Apóstolo não é só para os outros, mas temos de reconhecê-lo primeiramente como nosso e para nós, levando-nos a juntar a iniciativa humana à iniciativa de Deus.

Durante toda a Quaresma, e de modo mais explícito na Semana Santa, fomos confrontados com a profundidade do Amor de Deus, manifestado no mistério da vida de Cristo. Toda a vida de Jesus é acontecimento salvífico, embora alguns sinais sejam mais expressivos do alcance do seu amor. As chagas de Cristo Crucificado são um dos sinais mais evidentes da radicalidade e da intensidade do amor de Jesus. O Senhor, para redimir o pecado do homem, em nada se poupou, levando o seu Amor ao extremo. As chagas, mais do que sinais de dor e suplício, são sobretudo sinais de amor, um amor sem limites que, por si, é redentor porque cura. As chagas do Senhor são, enquanto sinal expressivo do seu Amor, um verdadeiro bálsamo e curativo, com a firme consciência que é o amor que salva e que cura. Diante das doenças humanas e do pecado do homem, a cura que verdadeiramente poderá dignificar o Homem é a cura do Amor, de que as chagas são sinal evidente e claro.

O amor de Jesus está muito bem representado na imagem que Ele apresenta de si mesmo: o Bom Pastor. A imagem de Pastor é a que melhor pode indicar a complexidade dos cuidados prestados por Jesus. O Senhor usa de compaixão para com o seu rebanho, coloca-se no meio dele, vive com o rebanho e dá a sua vida pelo rebanho. Diante desta atitude do Pastor, as ovelhas sempre confiam e veem no pastor a razão do seu existir. Daí a verdade que o Evangelho fala: Jesus entra pela porta e as ovelhas reconhecem a sua voz, ao passo que o ladrão e o salteador jamais terão a credibilidade das ovelhas, pois as procuram para explorá-las, cativar e matar. A realidade da vida humana está predominantemente infestada de ladrões e salteadores, que roubam a cada homem e a cada mulher a possibilidade de sonhar, de se realizar, de viver em dignidade, sob a opressão de estruturas de exploração, dependências, corrupção, cumplicidades e, em última instância, de morte. Só o Senhor entra como cuidador, só o Senhor age com amor incondicional, só o Senhor fala com palavras de Vida Eterna para que possamos reconhecer a profundidade da Sua voz.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen