Artigos, Bispos › 07/07/2020

A que serve orar?

Neste tempo de pandemia, mais recolhidos em nossas casas, algumas pessoas, graças a Deus, intensificaram sua vida de oração. Outras, porém, mesmo batizadas, não veem sentido nesta prática. Volta a questão fundamental deste tempo: a religião auxilia o ser humano a ser e viver melhor? Esta é a questão. O princípio antropológico de um ser humano voltado sobre si mesmo, sobre suas capacidades, sobre tudo o que quer conseguir, ele mesmo, sem depender de ninguém e, muito menos de Deus, produz uma visão egoísta do ser humano.

A compreensão de que não somos o centro, nem sequer de nós mesmos, nos dá a possibilidade de um “êxodo”, uma saída para o outro. Nele nos encontramos. Reconhecemos-nos fora de nós mesmos, em relação com Deus, com as pessoas e com o mundo. A grande insistência, extremamente positiva, de que o ser humano pode, basta que queira, produz uma visão humana deturpada. Impossível. Por si só, o ser humano não consegue. Ao reconhecer, maravilhado, que sempre foi visitado por Deus, antes mesmo de existir, reconhece-se sua criatura. A relação criatural, base de todas as outras relações, é fundamental. Dela nasce o reconhecimento de que somos fracos, precisamos de Deus. A proximidade de Deus nos eleva. Nossa felicidade e salvação não são construções humanas, meramente, mas vem de Outro, de Deus. Mais ainda, que esta salvação é puro dom, graça. “A prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores” (Rm 5,8). O ser humano, em Cristo, descobre-se amado. A relação criatural é fundada no amor manifestado a nós no Filho. Nunca sou eu mesmo, de maneira isolada. Sou diante deste grande e gratuito amor de Deus no Filho. A relação com Cristo, o seu seguimento, me auxilia para ser, nunca me humilha ou diminui.

A oração é este caminho do encontro, da comunhão, com Deus. Somos com Deus, em Cristo. Precisamos cultivar esta relação. Assim como seu amor por nós é gratuito, nossa relação com Ele também deve ser gratuita. Como dois amigos que se encontram, pois sentem saudades um do outro. Antes de ser uma ocasião de realizar pedidos e mais pedidos, a oração é encontro, produz comunhão de vida. Ela precisa ter este sentido existencial de quem se sente “profundamente” atraído a encontrar-se com Deus, pois sabe que depende dele. Então, orar nos faz ser humanos.

Sempre olhamos para Jesus Cristo e sua relação com o Pai. Sua oração diz respeito ao seu modo de ser. Os evangelhos nos apresentam Jesus constantemente em oração ao Pai. Ele se compreende como o “filho amado”, pois dirige-se a um Pai que o ama. Desta relação surgem as principais decisões de sua vida, suas palavras, seus atos. Ele ama e perdoa, porque contempla no Pai este amor e compaixão. Tudo parte desta conexão. Nada sem ela.

A constante referência a Deus, no seu Filho, nos faz colocar em nossas orações todo o cotidiano da vida. Na oração, não vemos a Deus, mas o experimentamos, o sentimos, bem próximo. Sabemos que não estamos sozinhos. Não basta ter amigos, é preciso O amigo, Deus. A primeira oração é sempre a oração mental, do encontro com Ele. Partilhamos as alegrias e, nas suas mãos, depositamos confiantes nossas preocupações. Quanta vida, quanto caminho, quantas interrogações são elevadas até Deus!

Como a oração cotidiana não faz parte de nossa vida profissional, é preciso colocá-la na agenda diária. Começamos o dia com a Palavra. Deixemos que ela seja alimento a ser digerido todo o dia. Com diz o Pe. Zezinho: “orar costuma fazer bem.”

Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta