Artigos, Bispos › 12/08/2021

“Abandonou tudo e seguiu Jesus”

Na terceira semana de agosto – mês vocacional – celebramos a vocação à vida consagrada religiosa. Assim como Mateus, o apóstolo, deixou seu posto de trabalho para seguir Jesus, homens e mulheres, jovens e adultos, sentindo o chamado do Mestre, deixaram tudo para doar a vida. Conventos, mosteiros, abadias, são lugares onde a vida é pautada pelo silêncio, oração e trabalho. Os consagrados contemplativos vigiam com o Cristo, esposo da Igreja, testemunhando um amor sem medidas. Vivem neste mundo, a alegria escatológica de estar com Deus e haurir, nesta fonte inesgotável, graças pela humanidade e pela esposa, a Igreja. A aparente alienação deste mundo é permeada pela intensa sintonia com a profundidade das aspirações humanas. Homens e mulheres que se possuem a si, trazem o mundo ao seu ser e oferecem em oração a Deus as mais variadas vicissitudes humanas. Na modéstia dos bens materiais, buscam harmonizar a vida no Espírito do Senhor.

Há outros que se consagram ao apostolado. Nas obras sociais, escolas, hospitais, nas periferias das cidades grandes, ou nos pequenos povoados, embrenhados nas florestas ou nos perigos das fronteiras, no enfrentamento ao tráfico de pessoas, na defesa dos direitos e da vida, lá estão os religiosos. Homens e mulheres, em sua grande maioria, que consagraram sua vida num gesto de doação incondicional ao Cristo no rosto dos irmãos e irmãs, em especial os mais abandonados, empobrecidos e excluídos. Jovens que deixam família, carreira profissional, país e cultura para assumir outra pátria, outra cultura e outras inúmeras famílias. São missionários e missionárias que partem para anunciar o evangelho. “Ide e anunciai a boa-nova a todos os povos”. Há religiosos que, como sacerdotes, estão à frente de paróquias nas dioceses, ou então onde a Igreja pede a presença  de pastores. Anunciar o evangelho! Anúncio por palavras, mas sobretudo pelo testemunho, pela proximidade e pela misericórdia, como recorda o Papa Francisco. Nos lugares mais recônditos e muitas vezes perigosos, lá estão esses corajosos missionários e missionárias, como que obstinados pelo amor, por um chamado especial. Deixaram tudo para seguir ao Senhor e para servir.

Celebrar a vida religiosa, recordando as ordens, institutos, congregações, é reconhecer sua inerente presença em nossa sociedade. É parte da história humana, por isso há também limites, fragilidades e pecados. Mas como não reconhecer tudo o que esses homens e mulheres fizeram e fazem no mundo da educação? No campo da saúde! Como não ter gratidão àquelas mulheres que, como ou sem hábito de freira, se consagraram para dedicar sua vida às crianças, aos jovens, aos últimos, aos leprosos, dependentes químicos, ou junto aos moradores de rua de nossas cidades? Como diz Jesus no evangelho: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt, 7,16). A vida religiosa é planta que deu e dá frutos do Reino. Com os pés no chão da realidade e, permeada de humanidade, oferece em seu ser e em suas obras, frutos do amor de Deus.

Em diferentes tempos, o Espírito Santo suscita homens e mulheres para responderem aos desafios da história. Há uma infinidade de carismas (educação, hospitais, órfãos, migrantes, pregação etc). Todos são Igreja. Uns se perpetuam nos séculos e até milênios, outros se extinguem no decorrer dos séculos. Como árvores que têm seu tempo. O Rio Grande do Sul, já foi celeiro de vocações religiosas. Hoje, por vários fatores e causas, já é terreno árido. Os fiéis são chamados a rezar e incentivar essa vocação. O materialismo e as preocupações “desse mundo” não podem sufocar a beleza e a alegria de uma vida que se consagra a Deus. Os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, além do desapego, da liberdade e do amor incondicional, recordam a transcendência. A humanidade que caminha para o céu e para Deus. Cristo viveu casto, pobre e obediente. Ele é o sentido pleno da vocação. Ele, o Mestre, nos diz: “Pedi ao Senhor da messe que envie operários para a colheita”. Vale a pena? Quando se tem amor, tudo vale a pena. E vocação é amar sem medidas, inclusive abraçando a cruz. Nela se encontra o Amor. E no amor, tudo ganha sentido e destino. “Quem ama permanece em Deus”. Parabéns a todos os consagrados e consagradas. Por tudo “Deo Gratias!”

Dom Adilson Pedro Busin, bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre