Artigos, Bispos › 11/03/2020

Campanha da Fraternidade 2020

Saúda-vos vosso Irmão-Bispo, desejando muita Paz e Bem, neste tempo da Quaresma, de preparação à Páscoa. Em nossa mensagem anterior, refletimos sobre o sentido da Quaresma e da Campanha da Fraternidade. Já lembramos o tema: “Fraternidade e Vida: Dom e Compromisso” e lembramos o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”(Lc 10,33-34). Somos, portanto, convidados a refletir sobre o significado mais profundo da vida em suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica. Sim, continuamos em campanha de fraternidade, em campanha de sermos mais irmãos e irmãs. Aliás, percebemos pela Liturgia da Palavra, neste tempo da quaresma, que a Igreja convida os cristãos a reavivar a graça do seu Batismo, quando nos tornamos filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs em Jesus Cristo. Portanto, somos da mesma família, participamos da mesma comunidade, da mesma Igreja, vivemos no mesmo planeta: nossa “casa comum”. Assim, estamos resgatando o espírito da fraternidade universal, que é desejo manifestado por Deus em toda história da salvação. Desde o primeiro capítulo da Sagrada Escritura, quandoé narrada a criação da pessoa humana, à imagem e semelhança de Deus, e da criação do universo, percebemos que todas as relações são de paz e fraternidade: “Então Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (Gn1, 31). Havia uma harmonia maravilhosa entre os seres humanos e entre estes com as criaturas. Uma convivência pacífica, fraterna que chamamos de “paraíso” e do qual sentimos saudade em nosso íntimo. É como que uma saudade da harmonia perdida, uma saudade da imagem e semelhança, distanciada do Criador, uma profunda vontade de viver a paz original, maculada pelo pecado humano. Santo Agostinho diria: “Nosso coração estará inquieto até que descanse em Deus”. A quaresma é um tempo especial de volta ao essencial, de conversão para o projeto do Criador, o projeto da vida, em Deus.

Também o mundo criado faz parte desta harmonia perdida. Quando desrespeitamos a ordem natural da vida, tomando atitudes que prejudicam o meio ambiente, nós provocamos o desequilíbrio ecológico. Nossa casa do mundo criado fica desorganizada, como nos alerta o Papa Francisco no documento LaudatoSì e Querida Amazônia. A pessoa humana, por sua liberdade e inteligência, participa da criação e da transformação da vida, especialmente pela ciência e pela técnica, mas isso deve acontecer dentro das orientações de Deus, para dignificar a vida e valorizá-la e não para destruí-la com projetos gananciosos de morte da pessoa humana e do mundo criado. Portanto, uma cultura da vida que busca o bem comum, fundamentada nos valores evangélicos da justiça, do amor e da fraternidade universal. O que não pode acontecer é a opção por uma cultura de morte: que é individualista, egoísta e interesseira em relação à vida. Esta visa aumentar avidamente as posses, o poder e o prazer, fora da ótica do bem comum, fora da ótica de Deus, do Deus da vida, revelado por Jesus Cristo.

Que o tempo das Quaresma nos faça abraçar o objetivo geral da Campanha da Fraternidade: “Conscientizar, à luz da Palavra de Deus, para o sentido da vida como Dom e Compromisso, que se traduz em relação de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, nossa Casa Comum”.

Optemos, pois, pela vida, maravilhoso dom de Deus e sintamo-nos convocados a assumi-la como compromisso em espírito de fraternidade universal.

Dom Aloísio Alberto Dilli  – Bispo de Santa Cruz do Sul