Artigos, Bispos › 27/10/2020

Crisma e Espiritualidade Cristã

Com a presença e ação do Espírito Santo nasce nos fiéis crismados um modo de ser, de viver como discípulo missionário de Jesus Cristo, ou seja, surge uma “espiritualidade” em sua vida cristã. S.Paulo a define como vida segundo o Espírito (cf.Rm 8,9), ouvida a partir do Espírito. É o Espírito Santo que inspira (dom, graça) a busca da vontade do Pai, no seguimento de Jesus Cristo, segundo o Evangelho.

A espiritualidade dos cristãos, portanto, será a mesma de Jesus, segundo o seu Espírito. Suas palavras, seus sentimentos, suas opções e atitudes de vida serão também as dos seus discípulos missionários. Seu viver é Cristo, diria S. Paulo (cf. Fl 1, 21 e 2, 5). Sendo assim, a espiritualidade é a fonte, “é o vigor do Espírito que a(s) pessoa(s) vai(vão) recolhendo ao longo da sua caminhada” (FassiniD.), que move o ser e o viver de uma pessoa: suas maiores e últimas motivações, seus ideais; enfim, é“sua utopia, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia” (Casaldáliga P.). Essa espiritualidade não nasce pronta. Ela é dom (carisma) e é tarefa. Há uma inspiração originária, oferecida gratuitamente pelo Espírito, que exige constante acolhida, concretização existencial na fé (relação teologal) e na ação (compromisso comunitário), cultivo e atualização, de nossa parte. A espiritualidade seria, então, a forma peculiar pela qual um crismado/a ou um grupo de fiéis se sente diante de Cristo e o segue na vida da comunidade de fé.

A espiritualidade cristã é uma realidade bem concreta, não oposta ao ser físico-biológico, do conceito platônico (separação corpo e espírito), mas inerente ao todo do seu ser: “espiritualidade ou é personalizada ou não é espiritualidade. Ou abrange todas as dimensões do meu ser (alma e corpo, pensamento e vontade, sexo e fantasia, palavra e ação, interioridade e comunicação, contemplação e luta, gratuidade e compromisso) ou não será minha, não me realizarei nela…” (Casaldáliga P.). Por isso não podemos confundir espiritualidade com espiritualismos desencarnados e descompromissados ou fundamentalismos anacrônicos. Não podemos querer um Cristo sem carne e sem cruz. Não se trata de fugir das realidades temporais para encontrar Deus, mas de encontrá-lo em seu trabalho diário e fiel, iluminado pela fé, inclusive em tempos mais difíceis, como em crise de pandemia. O Papa Francisco fala que o Espírito Santo é a alma da Igreja evangelizadora: “Não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração” (EG 262).

É preciso rejeitar a tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, distante da exigência da caridade, da lógica da encarnação (cf. NMI 52). Igualmente, não bastam obras sociais sem espiritualidade, pois não somos apenas uma ONG ou outra entidade filantrópica, mesmo tendo boas intenções. Uma sólida e profunda espiritualidade é exigência prioritária de quem recebeu o sacramento da Crisma ou Confirmação, fazendo parte da própria essência vocacional, seja no ministério diaconal ou sacerdotal, na vida consagrada ou na vida cristã leiga. Por ela a pessoa é guiada pelo Espírito e por ele configurada com Cristo, em plena comunhão de amor e de serviço na Igreja. Da espiritualidade depende a fecundidade apostólica, a generosidade no amor aos pobres, a própria atração vocacional sobre as novas gerações(cf.VC93). Como afirma Segundo Galilea: “Ela é a seiva da pastoral, da teologia, e da comunidade”.

Dom Aloísio A. Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul