Artigos, Bispos › 23/07/2020

Desafio para as mídias sociais

A pergunta que muitos se fazem nestes últimos tempos, em meio a uma enxurrada de informações a respeito da situação política, econômica, sanitária no Brasil, é: onde está a verdade? Quem diz a verdade? O que é verdade? Como promover a vida saudável?

Tais perguntas são, certamente, mais que legítimas, pois nos sentimos atingidos por noticiários, opiniões de todo tipo, lives e, infelizmente, fake news. O momento que a sociedade atravessa requer de todos, sobretudo de quem tem poder de decisão sociopolítica, sensibilidade, serenidade, discernimento, prudência e determinação.

Lugar de destaque possuem as mídias sociais neste momento de crise da sociedade. Crise que possui vários aspectos: econômico, político, sanitário, ético, social. A inquietação, o temor, o medo e a angústia que caracterizam o momento histórico, encontram reflexo nas mídias sociais. O que por meio delas é expresso, aponta para aquilo de bom e de menos bom o ser humano traz em seu interior.

A tecnologia que sustenta as mídias sociais é expressão da capacidade do engenho humano – sua autonomia e liberdade. Nela se expressa o poder do espírito humano sobre a matéria, podendo assim colaborar para dar forma e transformar o ambiente. Seus frutos são um “verdadeiro dom para a humanidade” (Bento XVI).

Contudo, se por um lado, as mídias sociais favorecem o conhecimento e a ampliação das relações, por outro, se tornam também lugar para extravasamento da obscuridade que o ser humano traz em si. Infelizmente não faltam, por exemplo, aqueles que se escondem por trás de perfis falsos para expressar opiniões radicais, agressões e dados sem comprovação. Assim, um instrumental com potencial extraordinário para aproximar pessoas, construir consensos, propor iniciativas em vista do bem comum, é usado para desinformar, desagregar e destruir.

A oportunidade de acesso às novas mídias sociais oferece uma série de oportunidades, exigindo atenção ao modo como a experiência de relações tecnologicamente mediadas estrutura o conceito da alteridade ou das relações interpessoais e do mundo. Neste âmbito, a experiência da fé cristã coopera para iluminar caminhos onde a verdade e a vida possam fluir de forma responsável e ética.

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da CNBB