Artigos, Bispos › 13/10/2022

Desiderio Desideravi – II

Na mensagem anterior iniciamos a reflexão sobre a Carta Apostólica Desiderio Desideravi, em que o Papa Francisco convida toda a Igreja para redescobrir, salvaguardar e viver a verdade e a força da celebração cristã. Já refletimos aspectos gerais de liturgia, sobretudo o hoje da história da salvação e a liturgia como lugar de encontro com Cristo.

Na presente mensagem continuamos o estudo do documento papal, abordando a Igreja como Sacramento do Corpo de Cristo. O Concílio Vaticano II, em seu primeiro documento: Sacrosanctum Concilium (04/12/1963), nos recorda que a Igreja nasce do lado de Cristo, perfurado pela lança, no alto da cruz. É o nascimento da nova Eva, a Igreja: “Foi do lado de Cristo que dormia o sono da morte sobre a cruz que saiu ‘o maravilhoso sacramento de toda a Igreja’” (n. 14). Pelo batismo nos tornamos ‘filhos no Filho’, participando do Corpo místico de Cristo, também sujeitos da ação litúrgica: “O sujeito que atua na Liturgia é sempre e somente Cristo-Igreja” (n. 14). A base teológica da liturgia é fundamental para a unidade e para que a ação sagrada alcance a plena, consciente, ativa e fecunda participação (SC 11 e 14); da mesma forma evita uma compreensão superficial ou até seja explorada a celebração litúrgica com intenções ideológicas ou outras.

O Papa Francisco ainda acentua que a liturgia é um antídoto para o veneno do mundanismo espiritual, expresso sobretudo pelo gnosticismo e o neopelagianismo. O primeiro reduz a fé cristã ao subjetivismo, aos próprios pensamentos e sentimentos; o segundo anula o papel da graça e conduz ao elitismo e classifica os outros de forma autoritária. A verdadeira liturgia nos mostra que a ação celebrativa não pertence ao indivíduo, mas à Igreja-Cristo, à totalidade dos fiéis, unidos em Cristo. Neste particular, o Papa Francisco afirma: “A liturgia não diz ‘eu’, mas ‘nós’, e qualquer limitação na amplitude desse ‘nós’ é sempre demoníaca” (n.19). Portanto, a liturgia nada tem a ver com moralismos ascéticos, mas constitui-se no dom pascal que, recebido com docilidade e gratuidade, renova a nossa vida.

A liturgia nos faz descobrir sempre de novo que nela acontece o sacerdócio de Cristo, revelado no seu mistério pascal e tornado presente e ativo por meio de sinais. Pela ação do Espírito todas as dimensões de nossa vida vão sendo conformadas cada vez mais a Cristo. Isso não se resolve apenas com rigorosa estética ritual, com observâncias exteriores ou fidelidade impecável às rubricas, mesmo que tudo isso possa ser importante, mas não suficiente para tornar plena a participação.

Outro tema essencial do ato litúrgico, abordado pelo Santo Padre, é o assombro ou maravilhamento diante do mistério pascal de Cristo para nos salvar e sua possível celebração pelos sacramentos. Assim percebemos que o encontro com Deus não é fruto de uma busca interior individual por Ele, mas é um acontecimento dado a nós, diante do qual nos maravilhamos e que nos incentiva para ações de louvor, de ação de graças, de adoração. Afirma Papa Francisco, no citado documento: “A maravilha é parte essencial do ato litúrgico” (n. 26).

Na próxima semana, continuaremos com nossa reflexão a partir do documento do Papa Francisco sobre a sagrada liturgia. Que o estudo e o aprofundamento nos ajudem a celebrar melhor.

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul