Artigos, Bispos › 30/09/2020

Devemos dar bons frutos

No texto da 1ª Leitura deste Domingo (Isaías 5,1-7), Israel, povo eleito, é comparado a uma vinha que o Senhor amou, mas que apenas produziu frutos amargos, ácidos e ásperos de infidelidade, injustiça, corrupção, opressão e violência. Nesta alegoria, confrontam-se duas atitudes: a de Deus, o senhor da vinha, e a de Israel, a “vinha do Senhor”. Deus apenas recolheu pecados, infidelidades, gritos de pessoas oprimidas e exploradas (os pobres, os órfãos, as viúvas), mentiras em tribunais, ódio, derramamento de sangue. Deus faz gestos de amor e o povo responde com ritos e manifestações superficiais de religiosidade. Como resposta, Deus, o dono, desprezou-a: tirou-lhe a vedação e foi devastada. O castigo são as invasões dos povos estrangeiros que deportaram os israelitas para as suas terras, como escravos.

No Evangelho deste Domingo (Mateus 21,33-43), Jesus retoma na parábola a alegoria da vinha e dos agricultores maus, em que o desígnio Salvador de Deus, a história do Povo eleito, as atitudes de infidelidade dos seus chefes, a vinda do Filho e a recusa de Israel em aceitá-lo estão bem patentes. No final da parábola Jesus interroga os seus ouvintes e pede-lhes a opinião sobre o comportamento a sugerir ao senhor. Eles respondem-lhe: “Mandará matar sem piedade aqueles miseráveis”. A resposta de Jesus não confirma as palavras de destruição e de ameaça dos seus interlocutores. Ele introduz a ação de Deus que não reage com violência. Mas Jesus sublinha o sentido das suas palavras na conclusão: o Reino de Deus vai ser-vos tirado e dado a um povo que lhe produza frutos.

Ao ouvirmos o relato deste trecho não podemos deixar de pensar em nós, que somos hoje essa vinha, o novo povo de Deus. E se com razão aplicamos à Igreja as palavras de carinho proferidas pelo Senhor, não devemos esquecer que frequentemente nós imitamos a infidelidade de Israel. Todos também corremos o perigo de repetir o mesmo erro dos guias espirituais do povo de Israel. Cada um de nós é também um administrador desta vinha. Como gerimos o patrimônio que nos foi confiado? De nós são exigidos frutos que produzam bom vinho: as nossas obras.

Esse patrimônio é a nossa fé e a Palavra de Deus que lhe deu origem e a alimenta. Como vivemos a nossa fé em relação a Deus e aos outros? Será que rejeitamos o proprietário da vinha, Jesus Cristo, como vemos fazê-lo tantas pessoas nos dias de hoje? Que provas concretas apresentamos para dar razões da autenticidade da nossa fé?

Quando nos unimos a Deus na oração nada pode destruir a nossa paz e alegria, diz-nos São Paulo na 2ª Leitura (Filipenses 4,6-9). E apresenta-nos qualidades e atitudes próprias de um verdadeiro cristão: a simpatia, a amabilidade, a honradez, o respeito, a verdade, a nobreza de sentimentos, o sentido da justiça, a lealdade, que constituem o suporte natural das virtudes especificamente cristãs em contraste com aqueles que se julgam «santos» e que seguem todas as regras religiosas, mas se tornam antipáticos, intratáveis e resmungões.

Com o nosso exemplo de vida, temos a responsabilidade de comunicar Deus que não é alguém severo, frio e distante, mas um Deus pessoal, atento, carinhoso e misericordioso. Peçamos o Seu auxílio para a consecução dos compromissos que hoje possamos tomar em relação aos frutos que devemos produzir nesta vinha do Senhor.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen