Artigos, Bispos › 05/11/2020

Eros e Ágape: as duas faces do amor

Os dois últimos Papas, antes do atual Francisco, João Paulo II, com sua Teologia do Corpo, e Bento XVI, com sua Encíclica “Deus caritas est”, tematizaram magistralmente o verdadeiro e integral sentido do amor. Esta minha reflexão é também uma grata homenagem a estes dois homens.

Vivemos um tempo acentuadamente secularizado. A própria pandemia da COVID-19 escancarou a limitação da secularização. Há um âmbito em que a secularização age de maneira especialmente difusa e nefasta, e é o âmbito do amor. A secularização do amor consiste em separar o amor humano de Deus, em todas as formas desse amor, reduzindo-o a algo meramente “profano”, ou Deus sobra e até incomoda.

O amor na mentalidade secularizada sofre dessa separação difusa e nefasta nas pessoas “mundanas” e nas próprias pessoas “religiosas”. Poderíamos formular a situação, simplificando ao máximo, assim: nas pessoas “mundanas”, temos um eros sem ágape e entre as pessoas “religiosas”, temos frequentemente um ágape sem eros.

O eros sem ágape é um “amor romântico”, mas comumente passional, até violento. Um amor de conquista, que reduz fatalmente o outro a objeto do próprio prazer e ignora toda dimensão de sacrifício, de fidelidade e de doação de si. Não é preciso insistir na descrição desse amor, porque se trata de uma realidade que temos todo dia diante dos nossos olhos, propagandeada com estrondo pelos romances, filmes, novelas, revistas, internet. É o que a linguagem mundana comum entende, hoje, com a palavra “amor”.

O ágape sem eros é um “amor frio”, um amor parcial, sem participação do ser inteiro, mais por imposição da vontade do que por ímpeto íntimo do coração. Um entrar no cenário pré-definido, em vez de criar um próprio realmente irrepetível, como irrepetível é cada ser humano perante Deus. Os atos de amor voltados para Deus parecem aqueles de namorados desesperados que escrevem à amada cartas copiadas de modelos prontos.

Se o amor “mundano” – eros sem ágape – é um corpo sem alma, o amor “religioso”- ágape sem eros – é uma alma sem corpo. O ser humano não é um anjo, um espírito puro; é alma e corpo substancialmente unidos: tudo o que faz, amar inclusive, tem que refletir essa estrutura. Se o componente humano ligado ao tempo e à corporeidade é sistematicamente negado e reprimido, a saída será dúplice: ou seguir adiante aos arrastos, por senso de dever, por defesa da própria imagem, ou ir atrás de compensações mais ou menos lícitas ou totalmente ilícitas.

Temos, então, um duplo motivo e uma dupla urgência de redescobrir o amor na sua unidade original, querido e criado por Deus. O amor verdadeiro e integral é uma pérola encerrada entre duas conchas que são o eros e o ágape. Não podem ser separados essas duas faces do amor sem destruí-lo, como o hidrogênio e o oxigênio não podem ser separados sem se privarem da água.

A reconciliação mais importante entre as duas faces do amor é prática. É aquela que acontece na vida das pessoas, mas, para ser possível, ela precisa começar pela reconciliação entre o eros e o ágape inclusive teoricamente, no ensino e aprendizagem. Isto nos permitirá conhecer finalmente o que é que se entende mesmo por estes dois termos tão comumente usados e subentendidos. É uma tarefa urgentíssima e decisiva para todos nós: sermos aprendizes das duas faces do amor – o eros e o ágape.

Dom Jacinto Bergmann – Arcebispo de Pelotas