Artigos, Bispos › 03/12/2021

Esperar e celebrar com fé

Estimados irmãos e irmãs em Cristo Jesus! O tempo do Advento é um caminho de preparação espiritual, para celebramos o Santo Natal. Podemos percorrê-lo sob a ótica dos apelos do consumo, mas como cristãos, queremos fazê-lo em nome da fé no Senhor, tendo presente que o dom mais precioso para nós, e para a humanidade inteira, não poderá estar no nosso meio, se não prepararmos um lugar no nosso coração para acolhê-lo. Para que isso aconteça, o discernimento torna-se o trabalho cotidiano do discípulo e da Igreja, colocada a serviço do bem comum.

Deus, Pai de infinita misericórdia, tem a capacidade de nos surpreender, de falar ao nosso coração quando menos esperamos, assim como fez a João Batista, filho de Zacarias. A Palavra de Deus tocou-lhe o coração e a mente no deserto, lugar inóspito, pouco adapto à vida e a residência do ser humano. Com esta narração, o evangelista São Lucas (Lc 3,2) procura nos dizer que a vinda do Filho de Deus se realiza na nossa história e a transforma, conferindo-lhe o sentido e a direção mais justa. Todo lugar pode ser um espaço apropriado para o encontro esperado com Deus. Basta criarmos no nosso coração as condições favoráveis para que isso aconteça.

João Batista, o precursor do Senhor Jesus, num momento da história da humanidade, era como “uma voz que gritava no deserto”, mas não abandonou a sua missão, levava no coração a esperança de que seu grito ressoaria para além do deserto, e chegaria ao coração daqueles que esperavam a vinda do Messias, prometido por Deus e anunciado pelos profetas, através das gerações.

A acolhida deste grito fará com que o deserto se torne um verdadeiro jardim: “preparai os caminhos do Senhor, endireitai suas veredas!” (Lc 3,4). A verdadeira operação que nos é solicitada é entrar no mistério do deserto! Na verdade quando nos colocarmos nesta condição de absoluto despojamento e receptividade, estaremos preparados para acolhermos o Senhor da vida.

João Batista, o Precursor, também nos dá testemunho de como se pode viver no deserto, contentando-se com tudo e com nada, na medida em que este lugar “que dá medo” (Dt 1,19) se transforma num lugar de espera, para contemplarmos horizontes infinitos, nos quais Deus, com amor e misericórdia, nos conduz e reconduz para participarmos do triunfo da sua vitória final sobre o mal, sobre tudo aquilo que fere a dignidade do ser humano e não faz parte do plano de amor de Deus, e por isso será derrotado.

Acolhamos, queridos irmãos e irmãs, as palavras do profeta que nos convida: “Olhai em direção ao oriente” (Bar 5,5); não nos resta que obedecer ao Precursor e ouvir o seu grito que do deserto ecoa pelo universo: “Endireitai” (Lc 3,4); não nos resta que obedecer ao apóstolo: “Podeis distinguir aquilo que é melhor” (Fil 1,10); não nos resta que seguir o salmista e sonhar” (Sal 125,1), porque maravilhas fez conosco o Senhor: exultemos de alegria, a vossa salvação está próxima.

+ Dom José Gislon, OFMCap. – Bispo Diocesano de Caxias do Sul