Artigos, Bispos › 18/03/2019

Esse rochedo é Cristo

O deserto é, na concepção bíblica, uma das experiências mais fortes e mais determinantes no caminho da humanidade para Deus. A aridez do relevo, a inexistência de vida, a monotonia do horizonte e o desgaste que provoca em quem nele caminha faz do deserto uma realidade que, de princípio, não faz parte dos planos do homem. No entanto, é também no deserto que as opções do homem se tornam práticas e determinantes, em que se torna secundário o que não tem importância e que se descobrem as verdadeiras referências e necessidades.

Por este mesmo motivo, na História da Salvação, Deus possibilitou muitos momentos de deserto ao Povo de Israel, ajudando a percorrer um caminho austero e frutuoso que o ajudou a colocar o coração no próprio Deus.

Neste ambiente de ausência do essencial, a água é vital para a sobrevivência de Israel, e todo o esforço do Povo passa pela descoberta da água, da nascente de água viva que lhe garantiria a vida. Por este mesmo motivo, e em alusão à experiência do Povo de Israel pelo deserto, São Paulo identifica a Cristo como o rochedo donde brota a água para o povo sedento. Cristo é o rochedo de onde brota esta mesma água para Igreja, o novo Israel.

Fixando o nosso olhar na realidade do homem do nosso tempo, quantos desertos fazem parte da vida e da história de cada pessoa! No entanto, os desertos não têm o fim em si mesmo, pois são lugares de encontro com o essencial e com o substancial! A sede que o nosso peregrinar nos provoca não devem prevalecer, pois continuamente nos é assegurada a verdadeira nascente, o Coração de Deus, de onde brota a água viva.

Compreender a nossa filiação divina à luz da pedagogia e paciência com que Deus nos assiste e cuida, leva-nos a entender melhor a parábola apresentada por Jesus, no Evangelho deste Domingo (Lucas 13,1-9). O Senhor age conosco a partir do Seu Coração Misericordioso, procurando em todo o tempo e lugar a possibilidade de nos fazer participantes da sua vida divina. Certo é que, em muitas ocasiões, podemos identificar a incredulidade ou a ingratidão humanas, mas, também aí, Deus age com a esperança de que o amor dará frutos no coração do homem. Deus é o primeiro a acreditar no ditado que aprendemos dos antigos: “Amor omnia vincit”: o amor tudo vence.

Nesta Quaresma o amor deverá dar frutos em nossa vida, para que não nos tornemos estéreis. Assim sendo, partindo da esmola, do jejum, da oração e das demais práticas penitenciais que se possam fazer, é necessário que o critério para vivermos estas práticas penitenciais tradicionais da Igreja seja sempre Ele, o desejo de voltarmos para Ele, como prova do imenso amor que temos para com Ele, reconhecidos pelas provas de Amor que Ele nos deu e continua a dar, e com vontade de entrar em maior intimidade com Ele, salvaguardando o bem que podemos fazer aos nossos irmãos.

O tempo da Quaresma é um tempo de deserto, onde o recolhimento nos leva a colocar o olhar sobre o essencial e a tudo entregar, como verdadeiros filhos, nas mãos do Pai.

Este também é o sentido de nosso comprometimento com a campanha da Fraternidade, que nos desafia a nos comprometermos com as políticas públicas, que visam, sobretudo, o bem dos irmãos mais excluídos.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen