Artigos, Bispos › 22/01/2020

Não desvirtuar a cruz de Cristo

A 1ª Leitura deste Domingo (Isaías 8,23. 9,3) nos apresenta esta grande luz que vem para desfazer as trevas do pecado e da morte. Esta luz é Jesus Cristo, o Messias que virá, Nós cristãos de hoje ao jeito de Jesus Cristo, também somos chamados a nos incorporar nesta batalha de quebrar «o jugo que pesava sobre o povo», repartindo pelo mundo os frutos da alegria, da justiça e da paz. E se nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo, como diz o Salmo Responsorial (Salmo 26), haveremos, já neste mundo, de «contemplar a bondade do Senhor na terra dos vivos».

Com o Apóstolo São Paulo, na 2ª Leitura (1ª Coríntios 1,10-13.17) é preciso que nos interroguemos sobre as «divisões». Porquê partidos dentro da Igreja, ‘capelinhas’, interesses egoístas, individualismos de toda a ordem? É preciso ver para aceitar; diagnosticar para salvar. Trata-se de um processo permanente de discernimento ativo, para nos curarmos das feridas da desunião. Só construindo a comunidade, evitaremos as divisões provocadas pela «sabedoria de palavras», pelas disputas e discussões mesquinhas que o próprio São Paulo quis afastar para longe, «a fim de não desvirtuar a cruz de Cristo». É que pode acontecer que matemos a eficácia do Evangelho que pregamos com a boca, mas não pregamos com as obras.

A Carta aos Coríntios testemunha como se formou e se desenvolveu a primeira Igreja cristã, no seio da qual, infelizmente, não faltavam as divisões. O Apóstolo escreve: «Rogo-vos, pois, irmãos, pelo nome de Jesus Cristo, que digais todos o mesmo, e que entre vós não haja divisões, sede perfeitos no mesmo espírito e no mesmo parecer». E pergunta: «Estará Cristo dividido?». Pode estar dividido Cristo que me enviou a mim Paulo, a anunciar o Evangelho, não com a sabedoria da palavra, mas em virtude da sua cruz? Podem dizer alguns de entre vós: «’Eu sou de Paulo’; ‘e eu de Apolo’; ‘e eu de Cefas’, ‘e eu de Cristo’?» Porventura Paulo foi crucificado por vós? Ou fostes batizados em nome de Paulo?»

Há muitos apóstolos, muitos servos de Cristo, mas através deles age sempre o próprio Cristo crucificado e ressuscitado. A igreja é de Cristo – somente de Cristo!

Como são atuais estas palavras. Como temos necessidade de tomar a peito estas reflexões do Apóstolo para abater, no início do século vinte e um, os muros das divisões e reencontrar o caminho da plena unidade!

Olhemos por fim para o Evangelho (Mateus 4,12-23). São Mateus cita a passagem do profeta Isaías na primeira leitura: «O povo que andava nas trevas viu uma grande luz». E que «grande luz» é esta, que se levanta nas trevas? É Jesus que começa a pregar e chama colaboradores, amigos dedicados, para anunciarem com Ele o Evangelho: «Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos Céus». A certeza de que Deus está conosco, e precisa de nós para salvar o mundo, é que nos leva a acompanhar o Senhor: «Vinde e segui-me e farei de vós pescadores de homens». Só Ele é a nossa luz e salvação. Só com Ele conseguiremos realizar a unidade, porque só Ele é o retrato da nossa identidade, o modelo, belo e esplendoroso, da dignidade humana.

Dom Antônio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen