Artigos, Bispos › 03/04/2020

O amor abre as portas do coração para a ação

A celebração do domingo de Ramos e da Paixão do Senhor marca o início da Semana Santa e antecede à celebração da Páscoa. Na liturgia da Igreja e na caminhada de fé do povo de Deus das nossas comunidades, é costume levar os ramos para serem abençoados, lembrando o ingresso de Jesus em Jerusalém para cumprir o seu mistério pascal. Lá, ele foi acolhido de forma triunfal pela multidão que agitava ramos de oliveira e estendia mantos ao longo do caminho por onde ele passava.

Diante da realidade particular que estamos vivendo neste momento da história, a prudência e o amor à vida, dom de Deus, nos pede para vivermos neste ano, a celebração do domingo de ramos e da paixão, assim como toda a Semana Santa e a Páscoa de uma forma diferente. Não reunidos em comunidades,nos espaços sagrados das nossas Igrejas, mas unidos em comunidade de fé, celebrando cada momento, a partir do lugar onde habitamos, a casa, o apartamento, etc.

Nós não podemos levar os ramos de oliveira e outros até as Igrejas para serem abençoados, mas somos convidados a colocar um ramo no portão do quintal, na porta da nossa casa ou apartamento, participando de um gesto de comunhão, mas também colocando diante do Senhor a vida, a família, a comunidade. Manifeste amor e compaixão pelos teus, mas também tenha abertura de coração para a solidariedade e a caridade. Faça gestos concretos de bem, que manifestem a tua fé e a presença do Senhor no teu coração. Ele, mesmo ferido e humilhado, carregou a cruz até o Calvário, e na cruz entregou a sua vida, por mim e por ti.

Queridos irmãos e irmãs, é tempo de fortalecermos a esperança no amanhã, sem esquecermos que os irmãos e irmãs também querem viver. Onde falta o respeito pela vida, e a dignidade de vida dos mais vulneráveis é subjugada pela ganância e a indiferença, a esperança pode agonizar e deixar crescer a violência. Este tempo nos convida a olharmos a vida e a nossa realidade com os olhos da compaixão do Senhor.

Podemos viver sem vermos ou nos envolvermos com o que está acontecendo ao nosso redor. Podemos optar por agir guiados pela cegueira da indiferença, que paralisa não só as ações do coração, que se alimentam do amor e da compaixão, mas nos torna cegos e indiferentes também diante do amor do Senhor. Acabamos perdendo a capacidade de experimentar o amor de Deus em ação na nossa própria história pessoal, familiar e comunitária. Esquecendo que Deus vê o coração do homem, e o coração é o lugar onde a Palavra de Deus toca a nossa vida, alimenta a nossa fé e nos motiva para a ação, para a prática da caridade, geradora e protetora da dignidade da vida.

Dom José Gislon, OFMCap , Bispo Diocesano de Caxias do Sul