Bispos › 16/11/2022

O Ano Litúrgico

Com a celebração da solenidade de Cristo Rei do Universo e a semana que segue a Igreja concluiu mais um Ano Litúrgico, o qual é definido como a celebração dos principais mistérios (acontecimentos) da história de nossa salvação, no espaço de um ano. No domingo seguinte inicia-se novo Ano da Liturgia da Igreja (Ano Litúrgico), com o 1º Domingo do Advento. Assim começa o chamado Ciclo do Natal. Certamente, já é do nosso conhecimento que o Ano litúrgico é formado por dois ciclos e é completado pelo Tempo Comum. Em 2022 já celebramos o Ciclo da Páscoa, que iniciou com a quaresma, passou pela Semana Santa, tendo seu auge no Tríduo Pascal, com a celebração da morte e ressurreição de Jesus Cristo, e se estendeu pelo Tempo pascal até Pentecostes. Concluído este Ciclo da Páscoa, vivemos o longo Tempo Comum (34 semanas), em que a Igreja celebra seu percurso pela história, atuando o mistério de Cristo, sob a ação do Espírito Santo, e celebrando também o testemunho dos santos e das santas, cuja vida se assemelha à de Cristo.

Para quem acompanha nossas mensagens, certamente já se deu conta que damos espaço especial para os acontecimentos litúrgicos durante o ano. Ao conhecermos o significado das diversas celebrações, certamente poderemos celebrar melhor os seus mistérios em nossa vida. Por isso, antes de iniciarmos o Ciclo litúrgico do Natal, continuamos a refletir sobre o Ano Litúrgico, como um todo, tentando descobrir sua riqueza teológico-litúrgica, como recomenda o Papa Francisco na Carta Apostólica: Desiderio Desideravi (n. 64).

Já afirmamos que a Igreja procura celebrar, no tempo de um ano, todo mistério da salvação, desde os tempos que prepararam a vinda de Jesus Cristo até a parusia (fim dos tempos). O liturgista brasileiro Dom Isnard (+2011) afirma que cada celebração eucarística contém todo Mistério da salvação, mas que cada dia do Ano Litúrgico focaliza determinado aspecto deste mistério. Podemos acrescentar que toda celebração litúrgica atua um determinado aspecto do Mistério da salvação, mas todos convergem para a Páscoa. Deus se revelou de muitos modos na história, até que, na plenitude dos tempos, se encarnou em Jesus Cristo, assumindo nossa condição humana e efetivando nossa salvação, cujo centro se encontra no mistério pascal. Essa obra redentora de Cristo continua atuante na história pela força transformadora do Espírito Santo. Em cada tempo litúrgico destacamos um determinado aspecto deste mistério salvífico, mas o todo do Mistério está sempre presente. Não que as ações temporais de Jesus Cristo, enquanto históricas, se tornem presentes, mas se atualiza o mistério salvífico da ação de Cristo, realizado uma vez por todas (Hebr 7, 27; 9, 12). Ele se torna o centro da história e sua ação salvadora se atualiza pelos sacramentos no hoje perene da história, que se transforma em momento salvador: o tempo é momento de salvação.

O Mistério pascal envolve toda nossa vida e em todos os dias. Mas durante o Ano Litúrgico há momentos celebrativos cíclicos. Não porque a ação salvadora de Deus seja inconstante, mas porque nós humanos precisamos de momentos mais intensos e significativos e outros mais comuns. Assim vemos que as diversas celebrações durante o Ano Litúrgico fazem memória das ações salvíficas, operadas por Deus através dos tempos, e as atua no momento presente, enquanto aguardamos a manifestação definitiva do Senhor: a liturgia celebra o ontem, o hoje e o amanhã (Hebr 13, 8), num só momento salvífico, em que a comunidade se insere. Deus é fiel em todos os tempos e sua Aliança não falha. Os homens e as mulheres de todos os tempos podem inserir-se nessa marcha irreversível para a plenitude, quando Deus será tudo em todos (1Cor 15, 28).

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul