Artigos, Bispos › 26/02/2021

O cuidado com a linguagem

A humanidade, ao mesmo tempo em que demonstra estar cansada de guerra, violência, agressividade e tantas injustiças sociais, parece também carecer aprender a usar melhor a linguagem, seja verbal ou não verbal, em seu cotidiano. Não é pretensão generalizar aqui, pois muitas pessoas sabem cuidar daquilo que dizem e como dizem. Mas, infelizmente, muitas intrigas, discórdias, divisões e até mortes são geradas pelo não uso da capacidade de dialogar adequadamente. O diálogo supõe saber ouvir e saber falar sem querer ser o centro das atenções e muito menos querer ser o dono da verdade.

É salutar e gratificante quando vemos pessoas que souberam desenvolver essa bela arte da comunicação. São pessoas que sabem construir pontes e jamais criam muros que dividem. Basta uma palavra “mal dita” para gerar conflitos entre seres humanos. E quando ainda uma autoridade, seja política ou religiosa, profere palavras sem o uso do bom senso e sem ter essa preocupação em construir uma cultura da paz, o estrago é muito grande.

Essa realidade se percebe já no seio familiar. Muitos dos conflitos familiares seriam resolvidos a partir de um diálogo sincero onde ninguém se sente o dono da verdade, mas juntos buscam compreender melhor as coisas em vista da restauração da paz e harmonia no lar. Quando um se acha no direito de se sentir o dono da verdade quebra toda possibilidade de diálogo. Isso vai gerando esfriamento na relação que pode chegar a uma convivência insuportável onde, infelizmente, muitos acham que só a separação ou divórcio seja o remédio.

Até dentro da própria Igreja isso é algo presente. Quando um líder religioso se acha no direito de dizer o que pensa e como pensa sem levar em conta o essencial de sua missão, que é favorecer a unidade e comunhão entre todos, sobretudo estar em comunhão com o Papa e o Colégio Episcopal, vai favorecendo um clima de hostilidade, de polarização. Gera, na verdade, um clima de divisão entre pessoas que se dizem seguidoras de Cristo. E isso acontece, não poucas vezes, em nome de um “amor” pela Igreja e pela Tradição. Não basta ter boas intenções quando falta o devido cuidado com aquilo que se fala e como se fala.

Crescer na arte do diálogo, saber discernir bem as coisas, buscar perceber o que não está em conformidade com a verdade do Evangelho e buscar, com maturidade em Cristo, fazer tudo que é possível para construir uma cultura da paz, a partir da Justiça do Reino e da misericórdia revelada em Cristo, é o caminho que todos devemos percorrer.

Dom Aparecido Donizeti de Souza – Bispo auxiliar de Porto Alegre