Artigos, Bispos › 02/04/2019

O pecado e o perdão

“Eu também não te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais” (Jo 8,11). Estas palavras de Jesus à mulher adúltera são o ‘final feliz’ da dramática realidade humana do pecado e a possibilidade sempre aberta de uma acolhida misericordiosa de Deus, a quem se coloca no caminho da conversão. O tempo quaresmal escancara o drama do pecado humano, sobretudo quando contemplamos a paixão e morte de Cristo e suas consequências nas dores do mundo. Com certeza, nem todas as pessoas se perguntam sobre o pecado. Nem sequer todos os católicos! A consciência do pecado está diretamente ligada ao caminho de adesão a Jesus Cristo, pela fé, que forma a consciência e fornece os elementos para o julgamento correto de cada ação. Porém, a autorreferencialidade humana atual pode tornar-se critério único para decisões morais, levando ao relativismo. A antropologia cristã sabe que no coração humano residem a ambição, o ódio, a violência e o egoísmo.

O pecado é sempre o rompimento de uma relação. O ser humano foi criado para a comunhão e a relação com Deus, com os irmãos e com o meio ambiente. Para quem crê, o ponto de referência das decisões da vida não é “o que eu acho”, “o que eu penso”, mas um Outro, com o qual eu estabeleço uma relação de amor, fonte da vida, providente, Deus. É a partir de Jesus Cristo que o cristão, cotidianamente, realiza seu “exame de consciência”. Se a consciência for bem formada, ela mostra as rupturas e as machucaduras que o pecado produziu em cada um, no convívio e nas estruturas de pecado que ferem e matam. “As estruturas de pecado são a expressão e o efeito dos pecados pessoais” (Catecismo da Igreja Católica, n.1869). Porém, carecemos de um “exame da consciência”, isto é, verificar se a consciência está bem formada, visto que é comum se verificar uma visão superficial da fé, que nem sequer incide sobre as principais escolhas, que não oferece o sentido para a vida e nem orienta os projetos pessoais e sociais. Consequentemente não se dá conta da incoerência de uma vida de oração com a indiferença e até o desprezo pelos pobres.

A necessidade da Igreja se fazer próxima das pessoas, num processo de acompanhamento, auxiliando a discernir a vontade de Deus na vida das pessoas inclui o sacramento da Penitência. Aliás, este sacramento não é uma direção espiritual, mas pode ser um importante auxílio. Vai mais além, pois é a extensão, na Igreja, daquela misericórdia manifestada por Jesus Cristo em sua vida e, sobretudo, em sua morte e ressurreição. Que libertadora esta palavra de Jesus ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2,5).  É o sacramento da alegria e da vida nova. Não podemos reduzir o sacramento da confissão a apenas um ritualismo de contar os pecados ao padre. Precisamos de um processo de conversão, pelo qual o cristão se reconhece pecador e deseja refazer sua vida cristã. A cada confissão é como se voltássemos a mergulhar espiritualmente na pia batismal, para emergirmos como novas criaturas. É claro, porém, que não é um rito mágico, mas o perdão e a graça recebidos necessitam de um caminhar sempre na presença do Senhor, com vigilância.

Enfim, que esta Quaresma seja momento de experimentar mais intensamente a misericórdia de Deus. Na Oração Eucarística Sobre a Reconciliação, rezamos: “Vós, Deus de ternura e de bondade, nunca vos cansais de perdoar. Ofereceis vosso perdão a todos, convidando os pecadores a entregar-se confiantes à vossa misericórdia”. Vivamos este sacramento como um “presente pascal e uma libertação.” (W. KASPER, 2015, p.201).

+ Dom Adelar Baruffi – Bispo Diocesano de Cruz Alta