Artigos, Bispos › 30/04/2021

O que é rezar?

Há ainda lugar para a oração no corre-corre do cotidiano marcado por um crescente processo de secularização? A oração encontra ainda lugar em nosso cotidiano? O que é oração?

Conta-se de uma senhora de idade avançada que diariamente reservava tempo para o cultivo da oração. Pálpebras veladas, murmurava Ave-marias enquanto as contas do rosário iam deslizando por entre os dedos. Perguntaram-lhe: “o que é que a senhora está fazendo?” Com olhar tranquilo e voz mansa, um tanto admirada, ela respondeu: “Não estou fazendo nada. Estou apenas seguindo o fio da oração”. De forma lacônica ela, então, explicou que não era ela que fazia a oração, mas era a oração que a conduzia. Replicaram-lhe: “Mas o que é isso que a conduz?” A senhora com simplicidade respondeu: “não sei. Só sei que me carrega, como uma grande corrente de água”.

Alguém esperto na doutrina cristã e em métodos de oração poderia acusar essa senhora de ignorância. Diria provavelmente que ela não sabia da doutrina cristã e nem possuía o conceito de um Deus pessoal. Consideraria certamente aquela senhora ingênua, simplória.

Há uma antiquíssima tradição cristã que propõe um método de oração que pode ser de auxílio para quem se sente atingido e desafiado pelo ritmo contemporâneo de vida, marcado por celeridade. Trata-se daquilo que se cunhou denominar a “oração de Jesus”. Ela consiste na repetição da súplica “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, tem piedade de nós”. Sugere-se uma sintonia entre a oração e a respiração. São João Clímaco dizia: “Que a memória de Jesus se una inteiramente à tua respiração e tu conhecerás a significação do silêncio”.

Essa forma de oração do coração, silenciosa, pessoal e íntima não aponta para uma espiritualidade marcada pela evasão do mundo, mas, sim, de tudo o que é imundo.

Não encontraríamos nesta forma de rezar, uma indicação para resgatar a intimidade com Nosso Senhor e Mestre? Não seria este um método de oração chancelado pela nobre tradição cristã, capaz oferecer sentido à vida humana e resgatar seu sentido profundo e transcendental?

Dom Jaime Spengler, arcebispo metropolitano de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da CNBB