Artigos, Bispos › 20/03/2020

Onde ficou o Divino e o Humano?

Diante da pandemia do COVID-19, a reflexão que segue é oportuna:
Hoje em dia, as coisas só começam a ter valor quando são vistas e expostas, quando chamam a atenção. Hoje, nos expomos no facebook, e com isso nós nos podemos transformar em apenas mercadoria.
Originalmente, a palavra produção não significava fabricação e confecção, mas levar para diante, tornar visível. Na língua francesa é possível ainda ver que esse nível de significação fundamental da palavra produção ainda se mantém vivo. Se produire significa entrar em cena, mostrar-se. Também no vernáculo, ainda podemos sentir esse significado no uso pejorativo de “produzir-se”, no sentido de comportar-se como fanfarrão, fazer-se de importante. Sim, e tem um aspecto positivo, hoje nós nos fazemos importantes nas redes sociais, no facebook. Nós produzimos informações e aceleramos a comunicação, na medida, e isso pode ser negativo, em que nos “produzimos”, nos fazendo importantes”. Nós ganhamos visibilidade, podemo-nos expor como “mercadoria”. Nós nos podemos “produzir” para a produção. A vida, enquanto mera total-produção, faz desaparecer tanto os rituais quanto os encontros. Nos rituais e encontros, ao invés de produzir, gasta-se tempo, energia, gratuidade.

Hoje, o mero capital se submete a tudo. Lifetime value (valor da vida) pode significar a totalização dos valores que podem ser hauridos de uma pessoa como “cliente”, quando se comercializa cada momento de sua vida. Aqui a pessoa humana é reduzida ao valor de “cliente”, ou ao valor de “mercado”. A intenção que está no fundo desse conceito é que toda a pessoa, toda a vida é transformada num valor puramente comercial. O hipercapitalismo atual pode dissolver totalmente a pessoa humana numa rede de relações comerciais. Já não existe nenhum âmbito de vida humana que consiga se eximir da degradação provocada pela relação “comercial”. O hipercapitalismo transforma todas relações humanas em relações “comerciais”. Ele arranca a dignidade do ser humano, substituindo-a completamente pelo valor do mercado.

No mundo de hoje, tudo que é divino e humano ficou obsoleto. Tudo pode se transformar numa grande e única “loja comercial”. A assim chamada economia sharing (“partilha”) está transformando a cada um de nós em vendedor, sempre espreitando na “busca de clientes”. Nós enchemos o mundo com objetos e mercadorias com vida útil e validade cada vez menores. Essa “loja de mercadoria” não se distingue muito de um manicômio. Aparentemente, temos tudo, só nos falta o essencial, a saber, o “mundo”. O mundo perdeu sua alma e sua linguagem, se tornou desprovido de qualquer “suspiro” e “som”. O alarido da comunicação sufoca o silêncio. A proliferação e massificação das coisas expulsa o vazio. As “coisas” superpovoam céu e terra. Esse “universo-mercadoria” não é mais apropriado para se “morar”. Ele perdeu toda relação para com o divino e humano, para com o sagrado, com o mistério, com o infinito, com o supremo, com o elevado, com o digno, com o gratuito. Perdemos a capacidade de admiração e gratuidade. Vivemos numa “loja mercantil transparente”, onde nós próprios, enquanto “clientes transparentes”, somos supervisionados e governados. Já é tempo de rompermos com essa “casa mercantil”. Já é hora de transformarmos essa “casa mercantil” novamente numa moradia divina e humana, numa “Casa Comum”, onde valha mesmo a pena viver.

Dom Jacinto Bergmann – Arcebispo de Pelotas