Pastoral Vocacional /SAV

Pastoral Vocacional /SAV

Para facilitar nossa interlocução, iniciamos com o texto de Dom José Gislonsobre o SAV: O Serviço de Animação Vocacional – SAV do Regional Sul 3 da CNBB conta com a participação de sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos/as, e tem trabalhado com afinco para que a cultura vocacional permaneça viva e produza abundantes frutos, nas famílias, nas comunidades e na sociedade.

Para reforçar a importância da participação de todos na promoção vocacional, trago um dos mais bonitos relatos da Bíblia sobre vocação, a história do pequeno Samuel, filho de Ana. Ele servia o Senhor sob a direção do sacerdote Eli. Samuel era ainda uma criança, e, não era capaz de reconhecer, sozinho, o chamado de Deus. Mas no silêncio e no coração da noite, o pequeno Samuel coloca-se à escuta e procura discernir a voz de quem o chama. Precisará da ajuda do sacerdote Eli para poder compreender aquilo que Deus quer dele. “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: Senhor, fala que teu servo escuta” (cf. 1Sm 3,3-10.19). Eli indica o que fazer, mas não substitui Samuel no fazer.

Numa sociedade que dá pouco espaço à escuta, é fundamental, para ajudar os jovens no discernimento vocacional, ter tempo para escutar. Uma escuta autêntica favorece o discernimento de quem está buscando responder a voz que é ouvida pelo coração, mas pode ser difícil de compreender ou distinguir quem chama e o chamado, em meio a tantas situações importantes que tocam a vida dos jovens, nas famílias e nas comunidades. Quem trabalha com os jovens, portanto, não deve impor, mas sim “acompanhar, guiar e ajudar para que o encontro com o Senhor os faça ver qual é o caminho da vida”(Papa Francisco, Congresso dos Centros Nacionais para as Vocações das Igreja da Europa, 06/06/2019).

O caminho do encontro com o Senhor está ao alcance de todos nós, mas nós também precisamos muitas vezes de alguém que nos ajude neste itinerário. Como fez Eli com Samuel, e João Batista com seus discípulos. Esse caminho parece feito pelo homem, mas, na realidade, a iniciativa pertence sempre a Deus. “Hoje os jovens estão em movimento e devemos trabalhar com eles em movimento e tentar ajudá-los a encontrar sua vocação em suas vidas. Não se pode trabalhar pelas vocações sem se cansar, nos lembra o Papa Francisco. Portando, queridos irmãos e irmãs: “Não tenham medo de aceitar o desafio de anunciar ainda a vocação à vida consagrada e ao ministério ordenado” (Idem). A Igreja, Povo de Deus a caminho da casa do Pai, necessita desta vocação.

Equipe de coordenação do SAV SUL 3:

Neste ano a equipe de coordenação do SAV SUL 3 é composta por padres, religiosas(o) e leigo.

Pe. Gabriel Bagatini (Diocese de Montenegro) – Coordenador

Pe.  Marciano Guerra (Diocese de Caxias do Sul) – Vice coordenador

Pe. Ariel Luiz Bühler (Diocese de Novo Hamburgo) – Tesoureiro

Diego Maciel – Leigo Marista (Diocese de Santa Maria) – Vice-tesoureiro

Ir. Liane Berres(Diocese de Santo Ângelo)– Secretária

Ir. Juceli Zaffari (Diocese de Cruz Alta)– Vice-secretária

Irmão Geandir Wermann (Diocese de Santa Maria)– Comunicação

 SAV Rio Grande do Sul

Posterior a Assembleia dos Bispos do Rio Grande do Sul de 2018, com a presença dos Provinciais, foi lançado o desafio de pensar estratégias de Animação Vocacional para o Rio Grande do Sul.

Sendo assim, uma equipe foi constituída com integrantes do Serviço de Animação Vocacional da CNBB e CRB, para realização de pesquisa, levantamento de dados e assim, sonhar com uma caminhada conjunta.

No ano de 2019, os coordenadores da Animação Vocacional realizaram as primeiras reuniões e então, ações em conjunto deram início e definiu-se uma programação para o SAV Rio Grande do Sul. A partir de então, essa equipe integrada periodicamente tem se encontrado para planejamento, execução e avaliação de atividades, bem como partilhas, fortalecimento de vínculos e reforçar a importância de consolidar o trabalho em equipe.

DISCERNIMENTO VOCACIONAL

Em nossa sociedade atual a conexão, as notícias imediatas, o instantâneo, fazem parte da rotina cada vez mais acelerada, que proporciona uma superabundância de estímulos e desejos. Por isso, um dos objetivos fundamentais de quem acompanha as juventudes está em oferecer ocasiões para saborear o valor do silêncio e da contemplação, e formar para a nova leitura das experiências pessoais e para a escuta da própria consciência, dos seus sentimentos, sonhos, buscas. Isso podemos confirmar na Carta Final escrita após o Sínodo da Juventude, realizado no ano de 2018.

Por isso, exige tempos propícios de recolhimento, quer na normalidade da vida diária, quer em ocasiões privilegiadas, como recoleções, retiros, peregrinações etc. Um discernimento sério alimenta-se de todas as ocasiões de encontro com o Senhor e de aprofundamento da familiaridade com Ele, nas várias formas pelas quais se torna presente: os sacramentos particularmente a Eucaristia e a Reconciliação, a escuta e meditação da Palavra de Deus, a Lectio Divina na comunidade, a experiência fraterna da vida comum, e o encontro com os pobres, com os quais o Senhor Jesus se identifica. (PAPA FRANCISCO, 2019, Nº110, p. 91 e 92).

O caminho do discernimento, por sua vez, passa pelos questionamentos, para que a pessoa encontre a melhor resposta pessoal ao chamado de Deus, descobrindo como transformar, à luz da fé, seus passos rumo à plenitude da alegria à qual todos nós somos chamados.

 O assunto discernimento nos leva a abordar uma temática mais específica, que ao mesmo tempo é uma práxis e uma fonte de dúvidas cotidianas para muitos jovens que se sentem chamados ao seguimento do Senhor. Sendo assim refletiremos especificamente aspectos relacionados ao discernimento vocacional.

Para auxiliar na reflexão, nos embasamos na Exortação Apostólica ChristusVivit do Papa Francisco:

Para discernir a própria vocação, é preciso reconhecer que a mesma é a chamada dum amigo: Jesus. Aos amigos, quando se dá uma prenda, oferece-se o melhor; isto não significa que seja necessariamente a prenda mais cara ou difícil de conseguir, mas a que – sabemos – dará alegria ao outro. Um amigo tem uma percepção tão clara disto mesmo que consegue visualizar, na sua imaginação, o sorriso do amigo ao abrir o seu presente. Este discernimento de amizade é o que proponho aos jovens como modelo se quiserem compreender qual é a vontade de Deus para a sua vida. (PAPA FRANCISCO, 2019, nº287, p. 163).

A experiência de Jesus pode assim auxiliar na decisão de nossos projetos e escolhas. Percebem-se cenas e fatos bem humanos que Cristo também experimentou e vivenciou. Nem sempre foram deliberações fáceis de serem tomadas. Muita oração, ascese, renúncias, medo, insegurança também o acometeram. Porém, Ele tinha uma certeza e confiava de forma incondicional, como podemos identificar:

“Jesus não ilumina de longe ou de fora vós jovens, mas a partir da sua própria Juventude, que compartilha com vocês. […] Jesus tinha uma confiança incondicional no Pai, cultivou a amizade com seus discípulos, e inclusive nos momentos críticos permaneceu fiel a eles. Manifestou uma profunda compaixão pelos mais frágeis, especialmente os pobres, os doentes, os pecadores, e os excluídos. Teve coragem de enfrentar as autoridades religiosas e políticas do seu tempo; viveu a experiência de se sentir incompreendido e descartado; sentiu medo do sofrimento e conheceu a fragilidade da paixão; dirigiu seu olhar ao futuro, abandonando-se nas mãos seguras do Pai é a força do Espírito. Em Jesus, todos os jovens podem reconhecer se.” (idem, nº 31, p. 22).

É de responsabilidade de quem indica caminhos, gera oportunidades, auxilia nos processos, ter um olhar atento e diferenciado, assim como afirma o Papa Francisco:

[…] é a capacidade de encontrar caminhos onde outros só vêem muros, é a habilidade de reconhecer possibilidades onde outros vêm apenas perigos. Assim é o olhar de Deus Pai, capaz de valorizar e nutre a sementes de bem semeadas nos corações dos jovens. O coração de cada jovem deve, portanto, ser considerado “terra sagrada”, portador de sementes de vida divina, diante de quem devemos “tirar as sandálias” para nos aproximar e nos aprofundar no Mistério” (idem, nº67, p. 38).

Se o coração do jovem é considerado “terra sagrada”, é da responsabilidade de quem acompanha cultivar, “adubar”, auxiliar. E uma das principais fontes de cultivo, é através da espiritualidade. Oportunizando experiências e vivências que garantam uma terra sempre fértil com inúmeras possibilidades de produção.

Um dos pontos de partida da busca dos jovens se dá no desejo de desenvolver suas capacidades, suas potencialidades, “[…] reconhecemos um desejo de Deus, ainda que não tenha todos os contornos de Deus revelados […] desejo real de se desenvolver as capacidades que há neles para oferecer algo ao mundo.” (idem, nº84, p. 47).

O discernimento vocacional não é imediato, é um processo longo, que se desdobra ao longo do tempo, durante o qual é preciso continuar a vigiar as indicações com as quais o Senhor especifica uma vocação, que é primorosamente pessoal e irrepetível. Cabe ao animador vocacional percorrer o caminho com o vocacionado, lado a lado, vivenciando um itinerário com ele.

O percurso do discernimento vocacional deve ser acompanhado, mas permitir que o jovem o faça com liberdade, assim como afirma o Papa Francisco em sua Exortação Apostólica: “Graças à confiança de seus pais, Jesus se move livremente e aprende a caminhar com todos os outros.”(idem, nº29, p. 21). No olhar de Cristo, cada jovem pode voltar a descobrir a beleza do discernimento, e na sua intimidade experimentar a ternura e a coragem do testemunho e da missão.

Para alimentar constantemente a espiritualidade cristã, o jovem necessita encontrar instrumentos, pessoas e momentos que o marquem profundamente, provocando nele o desejo de verdadeira mudança. Estes meios colocam o jovem num processo constante de revisão de vida e de discernimento vocacional diante de Deus e diante do mundo. Além disso, o jovem que, ao optar pelo Senhor, assume uma nova postura diante da vida é, naturalmente, percebido, notado, admirado e seguido pelos seus companheiros: “jovens evangelizando jovens”. (CNBB, 2007, nº 120, p.74).

A fé é a fonte do discernimento vocacional, porque dela derivam conteúdos fundamentais, oportunidades e experiências singulares e a pedagogia intrínseca. Receber este dom da graça com alegria e disponibilidade requer do jovem fecundidade por intermédio de escolhas de vida concretas e coerentes.

Uma expressão do discernimento é o esforço por reconhecer a própria vocação. É uma tarefa que requer espaços de solidão e silêncio, porque se trata duma decisão muito pessoal que mais ninguém pode tomar no nosso lugar. Embora o Senhor nos fale de muitos e variados modos durante o nosso trabalho, através dos outros e a todo o momento, não é possível prescindir do silêncio da oração prolongada para perceber melhor aquela linguagem, para interpretar o significado real das inspirações que julgamos ter recebido, para acalmar ansiedades e recompor o conjunto da própria vida à luz de Deus. (PAPA FRANCISCO, 2019, nº283, p. 161).

Como destaca o Papa Francisco, é imprescindível que o jovem em processo de discernimento tenha seus momentos de silêncio, recolhimento e intimidade com o Senhor. Sendo esta uma das tarefas de quem acompanha, instigar e oportunizar momentos de encontro pessoal do acompanhado com sua interioridade e nela encontrar-se com Deus que habita no seu coração. O jovem que busca realizar o processo de discernimento por meio do conhecimento da verdade que é Cristo precisa trilhar o caminho que conduz à cruz e a ressurreição numa perspectiva escatológica da vocação.

Hoje, se faz necessário que os sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, profissionais e até jovens se qualifiquem para bem acompanhar os jovens no seu discernimento vocacional. “Quando nos toca ajudar o outro a discernir o caminho da sua vida, a primeira coisa a fazer é ouvir”. (idem, nº291, p.165).

O discernimento é um exercício absolutamente pessoal e intransferível. É definido como “o sincero esforço da consciência, em seu compromisso de conhecer o bem possível, sobre cuja base se tomam as decisões com responsabilidade, no correto exercício da razão prática, à luz do relacionamento pessoal com o Senhor Jesus”. Um exercício complexo que valoriza a liberdade pessoal de cada um à luz de seu relacionamento com o Senhor, e sua capacidade de conhecer o bem, ou melhor, de “senti-lo” em sua beleza e verdade a ponto de escolhê-lo. Um exercício que, portanto, pede à Igreja que esteja atenta para ajudar as pessoas, sem exceção “a ler sua própria história; a aderir ao chamado batismal com liberdade e responsabilidade; a reconhecer o desejo de pertencer e de contribuir para a vida da comunidade; a discernir as melhores formas para que isso se realize”. (CNBB, 2020,nº49, p.31).

Por fim, pensar em discernimento é ter clareza que foram oportunizados os meios para ajudar a pessoa a discernir ou reconhecer sua vocação, pois o chamado é único e personalizado. Assegura-se que toda vocação deve ser percebida graças a um discernimento, escutando o Espírito Santo e colocando-se diante de Cristo e da comunidade à qual é convidado também a servir. “A vocação cristã é atenta e disponível às necessidades da comunidade e de sua missão, mesmo quando estas contrariam ou superam as inclinações do vocacionado”. (CNBB n 36, 1983, p. 40 e 41).

Ao abordarmos a temática do discernimento, logo nos vem à mente processos, escolhas, respostas audazes e corajosas, com determinação e afinco que podem transformar a vida e a humanidade. Um exemplo concreto disso encontramos em Maria.

Deus chama Maria, por meio do anjo e ela responde prontamente. O seu “sim” ecoa forte e sem dúvidas, cheio de generosidade. Disponível a Deus, Maria une a liberdade com a vontade: “Eis aqui a serva do Senhor. Eu quero que se faça em mim segundo a sua palavra” (Lc 1,37). Sua entrega total a Deus acontece pela fé. Significa arriscar-se e entregar-se a Deus e seu plano salvífico com confiança. Na visita a Isabel, esta lhe diz: “Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido” (Lc 1,45).

Maria escutou a Palavra, acolheu-a no coração. Abriu seu espaço interior, deixou Deus entrar. Saiu de si e investiu sua vida num grande projeto, a que se sentiu chamada. Lucas nos apresenta Maria como a primeira discípula Cristã. Com a anunciação, ela inicia um longo caminho de peregrinação na fé, ao responder ao apelo de Deus. Aceita a proposta do Senhor com o coração aberto, num grande gesto de generosidade e de fé. (MURAD, 2012, p.55).

A maternidade de Maria não diminui a mediação junto a Cristo, mas mostra a sua força ao fazer Dele o centro. Sendo um elo entre Deus e a humanidade que favorece a união dos fiéis com Cristo. Não se origina de uma necessidade de Maria, mas do dom de Deus que quer se fazer humano por meio dela. Maria foi mãe, companheira, primeira discípula e serva do Senhor, tornando-se assim mãe de toda humanidade.

Por fim, o exemplo da jovem Maria desafia e interpela o nosso sim diário. Ela testemunha e convida a cada jovem a descobrir o estilo da escuta, a coragem da fé, a profundidade do discernimento e a dedicação ao serviço. Na sua pequenez, simplicidade e humildade Maria também enfrenta dificuldades para compreender e assimilar a vontade de Deus. Conforme encontramos em Lucas: “Maria, porém, disse ao anjo: como é que vais ser isso, se eu não conheço homem algum?” (Lc1,34). Com isso Maria é chamada a viver a experiencia da saída de si mesma e de seus projetos pessoais, aprendendo a entregar-se e a confiar totalmente em Deus, ao seu projeto.

*Ir Maristela Ganassini e Ir Geandir L Wermann

Exortação Apostólica Pós-Sinodal ChristusVivit. Sobre os jovens e a todo o povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2019.

Exortação Apostólica Pós-Sinodal ChristusVivit. Sobre os jovens e a todo o povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2019.

Documento Final do 4º Congresso Vocacional do Brasil. Brasília. Vocação e Discernimento. Edições CNBB, 2020.

Guia Pedagógico de Pastoral Vocacional. São Paulo: Paulinas, 1983(estudos 36).

Maria, toda de Deus e tão humana: Compêndio de mariologia. São Paulo: Paulinas: Santuário, 2012.