Artigos, Bispos › 18/03/2021

Queremos ver Jesus

Para muitos, Deus é alguém distante, ausente. Especialmente para quem valoriza excessivamente as amizades simplesmente humanas, é impossível pensar em um Deus presente, amigo de todas as horas, já que hoje, com maiores facilidades por causa da comunicação interpessoal, muita gente sente falta de um Deus que responda mensagens de aplicativos de contatos instantâneos.

Deus tem outra forma de agir e de se comunicar. Sua maneira de se fazer presente não é imediatista, mas visa fazer-nos ter sempre viva sua presença e seu Amor em nós.

Na 1a Leitura deste 5o Domingo da Quaresma (Jeremias 31,31-34), Deus por meio do profeta Jeremias nos garante sua proximidade amorosa “Porei a minha lei em sua alma, escrevê-la-ei em seu coração. Então eu serei o seu Deus e ele será o meu povo”. Ele nos garante a sua proximidade, através de uma presença em nós.

No Evangelho, São João narra-nos o encontro de Jesus com um grupo de gregos. Todos querem ver Jesus, conhecê-lo, privar de sua presença. Nosso Senhor não foge das pessoas, mas não quer ninguém enganado junto de si, como seguidor. Por isso, fala do grão de trigo que morre na terra e da exaltação que acontecerá na cruz: não uma exaltação humana, mas sim a vitória da vida que vai destruir a morte, da Graça que vai se impor e vencer o pecado com a sua morte na cruz.

Afinal, quem é Jesus que estes homens gregos procuraram e encontraram e que durante todos estes séculos tanta gente também encontrou em suas vidas? Você o conhece de verdade?

Ele é, como a Igreja nos ensina, o Filho vivo de Deus! Isso mesmo, vivo. Jesus não está morto, está junto do Pai também com a sua humanidade santíssima. Ele é verdadeiro Deus como nos ensina a Igreja, que definiu esta verdade em dois Concílios: no de Nicéia, em 325 e no de Éfeso, em 431. Assim, nele estão presentes a infinita plenitude da Vida, do Amor e da Ternura de Deus. Ele é Deus que se fez homem, para nos salvar. Deus amor conosco. Mas Ele também é verdadeiro homem, como definiu o Concílio de Calcedônia em 451. Jesus não é um fantasma, um boneco articulado que se movimenta. Homem como nós, que viveu em tudo a condição humana (sede, fome, frio, abandono, alegria etc.) como qualquer um de nós a vive. Somente foi diferente no pecado, ou seja, não teve o pecado, já que veio a este mundo para nos salvar do pecado.

Ele é indissoluvelmente Deus-Homem. Não se pode separar a divindade da humanidade de Cristo. No meio da humanidade atuou e salvou como Deus e Homem. Mas foi especialmente na cruz que Ele completou a obra da nossa salvação. Vale a pena olharmos para a Cruz. Olhemos para o Mistério de nossa Salvação, realizada por meio de Jesus.

Dirijamos hoje para Jesus Cristo os nossos olhares muitas vezes distraídos pelos efêmeros interesses terrenos; detenhamo-nos a contemplar a sua Cruz. A Cruz é fonte de vida imortal, é escola de justiça e de paz, é patrimônio universal de perdão e de misericórdia; é prova permanente de um amor infinito que levou Deus a fazer-se homem vulnerável como nós, até morrer crucificado. Os seus braços pregados abrem-se para cada ser humano e convidam-nos a aproximar-nos dele na certeza de que nos acolhe e nos estreita num abraço de ternura infinita: “Quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim” (Jo 12, 32)”. (Papa Emérito Bento XVI)

Dom Antonio Carlos Rossi Keller – Bispo de Frederico Westphalen