Artigos, Bispos › 26/02/2020

São Francisco de Assis e o Sultão

Na mensagem anterior refletimos sobre São Francisco de Assis e seu espírito de fraternidade universal, chegando ele a considerar todas as criaturas como irmãos e irmãs (cf. Cântico das Criaturas). Até em suas saudações no encontro com as pessoas invocava a Paz e o Bem. Percebemos que isso somente é possível para um ser humano que está em paz em suas relações: consigo, com os outros, com as criaturas e com Deus, merecendo o honroso título de padroeiro da ecologia e seu Cântico das Criaturas, recebendo as iniciais de importante encíclica do Papa Francisco: “Laudato Sì”.

Hoje nossa mensagem pretende continuar a reflexão sobre esse espírito da fraternidade universal do Santo de Assis, através de um fato histórico ocorrido há oito séculos, e celebrado em 2019, em várias partes do mundo, entre muçulmanos e cristãos, sobretudo franciscanos, como ocorreu na Paróquia dos Freis, em Lajeado/RS, em outubro passado. É do nosso conhecimento pelo estudo da História da Idade Média que no ocidente europeu foram organizadas várias Cruzadas, cujo objetivo principal era enviar, através do Mediterrâneo, tropas à Palestina para recuperar a liberdade de acesso dos cristãos peregrinos à Jerusalém. A guerra pela Terra Santa, que durou do século XI ao XIV, foi iniciada logo após o domínio dos turcos (seljúcidas) sobre esta região, considerada sagrada para os cristãos. Em junho de 1219 aconteceu a Quinta Cruzada, acompanhada por São Francisco. O Santo de Assis não participou por motivos bélicos, mas desejava conhecer e venerar os locais onde acontecera a encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, mistérios que não cansava de contemplar. Lembramos que até hoje os Freis Franciscanos cuidam, em nome da Igreja, dos lugares santos da Palestina.

Outro desejo de Francisco era encontrar o Sultão do Egito: al-Malik al-Kamil, sobrinho de Saladino, um apaixonado pela cultura ocidental e que até estudara em Paris. Francisco buscava anunciar o Evangelho, não só aos cristãos, mas a todos os povos. Unido ao desejo de evangelizar, não se descartava, inclusive, a possibilidade do martírio. Enquanto, em Damietta – Egito (Delta do Nilo: de onde se pensava melhor atingir os muçulmanos que ocupavam Jerusalém), de um lado havia o acampamento dos cruzados, do outro estavam as tropas do Sultão al-Malikal-Kamil para a defesa, Francisco, por vontade própria e no espírito de anunciar pacificamente o Evangelho a toda criatura, acompanhado pelo confrade, de nome Iluminado, atravessa a fronteira bélica e se dirige ao encontro do Sultão. A grande surpresa, ao atravessar a regiãodo conflito, foi a fraterna acolhida, sem agressões oua lógica prisão e possível morte. Os dois dialogam, falam e escutam. Um, certamente, fala com palavras cheias do Evangelho e o outro, sobre o que significava ser um bom muçulmano. Em momento de choque de civilizações, Francisco e o Sultão tiveram a capacidade de viver o diálogo e o encontro que pôde produzir frutos a longo prazo. O encontro de Damietta nos lembra quão estéril é o uso da violência e quão ilusória é a vitória obtida pela força e quão frágil é a paz obtida com a derrota do inimigo. Isso nos faz lembrar a afirmação de Papa Bento XV, há um século, no fim da Primeira Guerra Mundial: “Massacre inútil”. O diálogo é o caminho cristão da paz.

Mesmo sendo bem-sucedido no encontro com o Sultão, Francisco retornou à Europa, decepcionado com a experiência da Cruzada, em que havia interesses de fé, misturados com tantos outros. Porém, os frades continuam até hoje a cuidar dos Lugares Santos. O Senhor os abençoe e os proteja, em meio aos muçulmanos, judeus e cristãos. Que o diálogo inter-religioso, ensinado por Francisco, continue em nosso tempo.

Dom Aloísio Alberto Dilli – Bispo de Santa Cruz do Sul