Artigos, Bispos › 26/11/2020

 “Seu nome era João”

“Seu nome era João…” (Jo 1,6). Esta expressão do Evangelho de João, faz referência a um personagem da história, que, há dois milênios, tombou vítima da perversidade de alguns.

Aquele João, o Batista, recorda o João, que, na última semana, em Porto Alegre, tombou vítima da selvageria de outros. Não se trata de analisar seu passado. Urge, sobretudo, ter presente sua condição de pessoa humana.

João, num final de tarde, dirigiu-se até um mercado para adquirir bens necessários para si e, talvez, para os seus. Naquela tarde aconteceu algo no interior do estabelecimento comercial, desencadeando a fúria de alguns, a indiferença de outros e a indignação de muitos.

Arrastado para o lado de fora daquele estabelecimento comercial, sofreu as consequências de violência desmesurada, sendo-lhe recusada a possibilidade de defesa e de respiro. João foi assassinado.

Quase que imediatamente – e não podia ser diferente! – teve início uma onda de protestos de distintos setores da sociedade, Brasil afora. Tenha-se ainda presente que algumas autoridades públicas, como amiúde recentemente tem ocorrido, relativizaram o ocorrido.

O fato trágico ocorrido, traz a marca da falta. Falta de humanidade, racionalidade, bom senso, respeito, dignidade, honra, ética, educação, o sentido do ‘nós’…

O sentido do “nós” aponta para diferenças, alteridade, pluralidade de pessoas e suas diferenças. “Nós” diz ainda o plural de nó, uma pluralidade de conflitos e tensões, que a todos desafia a respeitar e promover as singularidades em questão.

Acolher, respeitar e promover pessoas e suas diferenças demanda investigação e compreensão da natureza humana, com suas possibilidades e potencialidades. Lugar de destaque neste trabalho possui a educação. Ela é “um dos caminhos mais eficazes para humanizar o mundo e a história” (Papa Francisco).

Investir em educação, não só técnica tendo em vista o mercado, mas, sobretudo humanística é certamente um caminho privilegiado para que outros “João” não sejam vítimas da crueldade e do ensandecimento de expressões de uma sociedade adoecida, que um vírus ajudou a expor de forma surpreendente.

Por Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e primeiro vice-presidente da CNBB